Mostrar mensagens com a etiqueta História e Artes/ History and Arts. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História e Artes/ History and Arts. Mostrar todas as mensagens

Tugu


A comunidade de Tugu vive numa aldeia, a nordeste de Jacarta, chamada Tugu. Esta zona de Jacarta é muito caótica, barulhenta e poluída devido à proximidade do porto de Tanjung Priok. Este porto é o principal do país, é enorme, com os seus cerca de 430 hectares, e tem um tráfego incessante. As estradas desta área de Jacarta têm um trânsito sempre congestionado pelos inúmeros camiões de carga que vão e vêm do porto. Assim, podem imaginar que não é muito fácil nem agradável o caminho até Tugu! No entanto, quando avistamos o pequeno cemitério da aldeia, começamos a relaxar um pouco. Saindo da estrada infernal e transpondo o portão de entrada, soltamos enfim um suspiro de alívio e de prazer: chegámos a Tugu. Fico sempre admirada com o aconchego, a limpeza e o encanto daquele lugarejo, afinal tão próximo da estrada infernal, mas ao mesmo tempo tão distante. Esquecemo-nos completamente dos camiões, do monóxido de carbono e do bulício enervante de onde viemos e entramos num mundinho à parte, com uma bela igreja branca do século XVII, encimada por telhas vermelhas, ao lado de um cemitério bem cuidado, com uma escola e uma biblioteca (construída com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian), um jardim e muitas árvores de fruto.


A Igreja de Tugu ou Gereja Tugu (a palavra indonésia gereja vem do português).

Cemitério de Tugu.
______________________________


Continuando mais para Este, mais para dentro, atravessamos o rio Cakung e vamos dar à aldeia propriamente dita, formada por ruelas retas e perpendiculares onde encontramos pequenas moradias com alpendres e vasinhos com flores. Nesta aldeia não vive apenas a comunidade de Tugu, vivem também indonésios de outras partes do arquipélago: das ilhas Celebes, das ilhas Molucas ou doutras regiões de Java.

Neste momento, vocês devem estar a perguntar-se o que é que a comunidade de Tugu terá de especial para eu perder tanto tempo e palavras a descrever a sua aldeia...

Há várias versões da origem da comunidade de Tugu. A mais comummente aceite é a de que se trata de uma comunidade de descendentes de mestiços Portugueses e de antigos escravos de Portugueses: um grupo de Mardjikers que habitava a então chamada Batavia (nome por que era conhecida Jacarta nos tempos da administração holandesa).

Para compreender quem eram os Mardjikers, é preciso um pouco mais de História.

Jacarta foi conquistada pelos Holandeses em 1619 e grande parte da sua população não era indígena. Inicialmente, vieram habitantes da costa de Coromandel e da costa do Malabar na Índia, recrutados pelos Holandeses para trabalhar como soldados do exército colonial e como guardas para manter a paz em Batavia, impedindo revoltas locais. Estes homens eram apelidados de Mardjikers (termo do sânscrito atribuído no período Hindu a religiosos ou monges que não pagavam impostos), pois estavam isentos de pagar impostos. Mais tarde, surgiram escravos oriundos das ilhas Molucas, que trabalhavam nos navios ou na construção de fortes, estradas e outros projetos. Por bom comportamento ou pelos bons serviços prestados, estes escravos eram muitas vezes libertados – e passavam a ser chamados Mardjikers também, não porque não pagassem impostos, mas porque eram livres. Finalmente, depois do declínio do império colonial português no Sudeste Asiático em meados do século XVII, chegaram comerciantes, artesãos e aventureiros oriundos de Malaca, Ceilão, Cochim e Calecute – estes estrangeiros, com mais talento, conhecimento e experiência no convívio com os Europeus, tornaram-se funcionários públicos, proprietários de lojas e empregados em entrepostos comerciais. Socialmente, misturavam-se com os Mardjikers. Estas três levas de emigrantes acabaram por se fundir numa comunidade mais ou menos homogénea durante o século XVII. Eram os chamados “Portugueses Negros”. Esta denominação vem do facto de esta população ser maioritariamente de pele mais escura do que os malaios, por fazerem parte de comunidades de "cafres", ou seja, africanos da costa oriental levados, primeiramente por portugueses e mais tarde por britânicos, para as costas da Índia. O que é que esta gente – de países e regiões diferentes; de grupos sociais, culturais e profissionais diferentes – tinha em comum? A língua e a religião.

Todas estas pessoas tinham vindo de regiões onde Portugal estivera presente, quer como potência colonizadora quer apenas como agente comercial, tendo sofrido a influência da língua, religião e cultura portuguesas. Todas elas adotaram o Português como língua de comunicação e durante quase dois séculos o Português foi efetivamente a língua de comunicação em Batavia: entre Europeus e nativos de diferentes países e mesmo entre os próprios Asiáticos que vinham dos seus diferentes países para Batávia. Ao contrário do que se imaginaria, a religião dos “Portugueses Negros” não era o catolicismo. Todos eles foram convertidos ao Calvinismo em Batávia, devido às imposições rígidas dos Holandeses – que, no entanto, não conseguiram converter-lhes a língua.

Os Tugu descendem de um grupo de Mardjikers a quem os Holandeses ofereceram um terreno (onde fica a aldeia de Tugu), em 1661, pelos bons serviços prestados à Companhia das Índias Orientais.

Apesar de todas as vicissitudes, este pequenino enclave manteve vivo um crioulo de base lexical portuguesa, o Papiá Tugu, até 1978 – ano em que morreu Jacob Quiko, o então chefe da comunidade e único falante da língua. Atualmente, esse crioulo sobrevive apenas nas letras das canções de Keroncong que eles cantam.


Andre Michiels, o chefe da comunidade, com crianças de Tugu - cantando e tocando Keroncong.
____________________________________

O Keroncong é um tipo de música que nasceu no seio desta comunidade e que é hoje em dia considerado um tipo de música nacional de grande popularidade. A sua origem remonta ao século XVI, quando marinheiros portugueses trouxeram com eles a sua música e instrumentos ao arquipélago indonésio.

No entanto, é também possível sentir uns resquícios desse belíssimo crioulo, muito semelhante àquele falado em Malaca, em algumas expressões quotidianas que ficaram cristalizadas e que os membros da comunidade ainda usam.

Os Tugu são protestantes. Fazem questão de assumir e exibir a sua diferença relativamente aos “outros”. Orgulham-se da sua ascendência portuguesa, gostam de beber vinho, de comer carne de porco, dançam aos pares, falam com brio da sua fisionomia europeia e dos seus narizes longos, riem-se desbragadamente e dão-se a comentários brejeiros (o que contrasta imenso com a cultura javanesa que preza a moderação e a cerimónia) e adoram conviver, cantar e dançar.

Em 2008, a então Leitora do Instituto Camões em Jacarta, Maria Emília Irmler, criou – com a assistência de uma jovem indonésia que aprendera danças tradicionais portuguesas em Macau, a Pipita – um grupo de danças tradicionais portuguesas constituído por membros da comunidade. São os Romeiros de Tugu. *


Os Romeiros de Tugu no Navio Sagres.
___________________

Finalizemos, então, com uma música Keroncong chamada “Kafrinju”, que fala sobre uma mestiça portuguesa de Goa, cantada em crioulo de Tugu pelo chefe da comunidade: Andre Michiels. O termo "Cafrinho" vem de "cafre", que mencionei acima. A Cafrinha é, assim, uma forma musical comum a várias comunidades luso-asiáticas desde o Sri-Lanka, à Malásia e à Indonésia, que remonta ao folclore crioulo português de África, que chegou à Ásia a bordo dos navios portugueses. Reparem na execução instrumental desta cantiga kafrinha da comunidade de Tugu, que é magnífica - autêntico jazz crioulo!


 Deixo-vos, também, um gostinho do crioulo Tugu com a belíssima letra da canção Keroncong  - “Moresco”, provavelmente uma canção popular entre os marinheiros portugueses do século XVI.


Moresco


Anda-anda na bordi di mare
Mienj korsan nunka contenti
Io buska ja mienja amada
Nunka sabe ela já undi

Io buska mienja amada
Ia mienja noiba mienja amoor
Io buska até tuda banda
Isti corsan teeng tantu door

Io prunta fula e strella
Bosoter munka ola un tenti
Fula e strella nunka resposta
Mienj korsan nunka kontenti

O, bie aki mienja amada
Mienja noiba, o moler bonito
Io espara con esparansa
E canta contigo Moresco

Anda, anda pela borda do mar
O meu coração nunca está contente
Eu busco a minha amada
Nunca sei onde ela está

Eu busco a minha amada
A minha noiva, o meu amor
Eu busco-a por todo o lado
Este coração tem tanta dor

Eu pergunto a uma flor e a uma estrela
“Vocês viram-na?”
A flor e a estrela nunca respondem
O meu coração nunca está contente

Ó, vem aqui minha amada
Minha noiva, ó mulher bonita
Eu espero-te na esperança
De cantar contigo o Moresco

Black Portuguese Church - Gereja Portugis


This sunday morning i decided to visit, for the first time, an important building of Jakarta - for its historical and architectural richness: the Gereja Protestan di Indonesia bagian Barat, Jemmat "Sion", or "Gereja Portugis" - as it was once known. This morning i went to the Black Portuguese Church, the protestant church "Sion", in Kota - the historical centre of Jakarta.

This is the oldest church in the city and the oldest building in Jakarta which is still used for its original purpose.

I felt very inspired while visiting this place, for many reasons: because on sundays mornings i'm specially sensitive; because this building has to do with the "portuguese" remains in this wide and metropolitan city; because it is a beautiful place - well kept, still shining, a cozy corner; because i was surrounded by peaceful and welcoming people; because i heard wonderful christian chants in indonesian; because it's always moving for me to be in a place where i can breathe history in Jakarta, which is not dirty or ruined, where i find people who care for the place where they are and have consciousness of its importance.

The church was built according to the plans of Ewout Verhagen, from Rotterdam, in 1693, and it was finished in 1695. It became a very fashionable church, though built for the poorer section of the Portuguese speaking population in the then knwon Batavia.

Baroque pulpit, work of H. Bruijin, belongs to the original furniture of the church (1695).
_______________________________
On the left, one of the four big chandeliers, made of yellow copper, with reflectors in the force of shields with the coat-of-arms of Batavia. It dates from the end of the 17th century._____________________________The original organ, with its rich carvings, was lent by the daughter of Rev. Maurits Mohr in the 18th century and is now out of use.
___________________________

Who were these people - the portuguese speaking population of Batavia, in the 17th century?

Before the Dutch appeared in Indonesia (1596), the Portuguese had already established a network of harbour towns controlling the trade between the Spice Islands and Europe. In order to conquer and to mantain its monopoly on spices and other profitable trade, the Dutch East India Company (VOC) attacked the portuguese in the East wherever they had established trading posts, forts or towns, for instance, India, Sri Lanka, Malaya, China, Japan and Mollucas. These Portuguese, who had arrived in Asia a full century before the Dutch founded Batavia (1619), had created a vast population of "Eurasians"...

In 1641 Malacca, once a trade emporium of Portuguese merchants, fell into the hands of the Dutch, as many other ports in India and Ceylon. From these places the Dutch brought many prisoners to Batavia. The "white" Portuguese, especially the richer ones, settled well inside the walls of the city, in elite quarters of Batavia, and started to have a privileged relation with the dutch elite; but the poorer prisoners, and those bought as slaves by the Dutch, lacked the means to live inside the walls - they had portuguese names (inherited from their portuguese godfathers on catholic baptism) but hardly much portuguese blood. Among them were some Malays, but most of them were Bengalis and Ceylonese. The Dutch granted them liberty on condition that they become members of the Dutch Reformed Church. Those who converted and became protestants (almost all), and therefore free from slavery, were called Mardijkers or "the liberated ones".

In spite of changing their confessed religion, the Mardijkers didn't change their language. Thus, in the 17th century and partly also in the 18th century, the most common language in Batavia was a kind of portuguese mixed with many malay words. Some protestant ministers had even to learn portuguese in order to serve this growing community. In fact, portuguese still was the lingua franca to Asia, though Portugal had since long become powerless.

It was for this community, the Black Portuguese Community, that the De Nieuwe Portugeesche Buitenkerk, as it was called in dutch (meaning: "Portuguese church outside the walls") was built for.



And today there i was, not as a white portuguese, but as a Mardijker in hearth, to pay tribute to all those who kept the portuguese language alive for so many years in this remote far east city of the world...

________________________

Sources: Ronal Daus, Portuguese Eurasian Communities in Southeast Asia; Adolf Heuken, "Portuguese Remains in Jakarta" in Indonesia - Portugal, Five Hundred Years of Historical Relationship.