Mostrar mensagens com a etiqueta os Indonésios/ Indonesian People. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta os Indonésios/ Indonesian People. Mostrar todas as mensagens

Os Homens das Obras


Obras em Kuningan, Jacarta.
_________________________

São 23:25. É dia 22 de fevereiro de 2011. Barulho de obras. Há várias obras a decorrer à volta da área onde vivo, aqui em Jacarta. Oiço-os pela noite fora, esses homens de berbequim gigante entre os braços. Nas noites piores, de insónia, oiço-os até horas impossíveis, o que me leva a crer que trabalham 24 horas por dia, com pequenos intervalos interpostos. Como é possível gostar de um país onde se permite explorar desta forma o outro? E isto aos olhos e aos ouvidos de toda a gente, que quanto muito se queixam por si mesmas, por não conseguirem dormir e pelo desconforto de testemunhar tal barbaridade, e não por refletirem na pesada condição dos homens subalimentados e indefesos que esticam os seus músculos indóceis e suam as suas faces sob grandes óculos de segurança. Estou cansada de um mundo onde as pessoas são apaixonadas por si próprias. Apesar de tudo, aqui é mais raro de encontrar, excluindo os ocidentais – que são extremamente vaidosos, num lugar onde é tão fácil ser rico e exibir riqueza e “status”. Os indonésios, no geral, são pobres, e têm famílias tão grandes e tantos amigos, vizinhos – têm una notória inclinação para a empatia, para uma forma de pensar holística, de interdependência entre os seres, em detrimento do espírito competitivo e individualista do homem moderno ocidental, capitalista. Esta cidade cansa-me, este país cansa-me, e até estas pessoas me cansam por vezes – mas não há dúvida de que me estão a ensinar – na sua linguagem silenciosa, tímida e difícil – o que é e como é viver entre os demais humanos, sem a privacidade e a reserva que me caracterizam.

cair e ser triturado ou morrer eletrocutado - qual o melhor?

Ainda que as estações de comboio ostentem estes cartazes deveras expressivos, alertando os passageiros para os perigos de ir no teto do veículo...



... eles não se impressionam e continuam a subir para a parte descapotável e mais espaçosa do comboio.


Isto acontece principalmente nas horas de ponta, quando os comboios vão apinhados de gente. Há acidentes quase diariamente, muitos mortais.






Já me aconteceu ver jovens a dormir lá em cima, a ler ou a tocar guitarra. Já me aconteceu ver gente a caminhar lá em cima, com o comboio em andamento. Já me aconteceu ver miúdos pequenos a rir e a saltar lá em cima. Felizmente, nunca me aconteceu assistir a saltos mortais. Por enquanto.

Tugu


A comunidade de Tugu vive numa aldeia, a nordeste de Jacarta, chamada Tugu. Esta zona de Jacarta é muito caótica, barulhenta e poluída devido à proximidade do porto de Tanjung Priok. Este porto é o principal do país, é enorme, com os seus cerca de 430 hectares, e tem um tráfego incessante. As estradas desta área de Jacarta têm um trânsito sempre congestionado pelos inúmeros camiões de carga que vão e vêm do porto. Assim, podem imaginar que não é muito fácil nem agradável o caminho até Tugu! No entanto, quando avistamos o pequeno cemitério da aldeia, começamos a relaxar um pouco. Saindo da estrada infernal e transpondo o portão de entrada, soltamos enfim um suspiro de alívio e de prazer: chegámos a Tugu. Fico sempre admirada com o aconchego, a limpeza e o encanto daquele lugarejo, afinal tão próximo da estrada infernal, mas ao mesmo tempo tão distante. Esquecemo-nos completamente dos camiões, do monóxido de carbono e do bulício enervante de onde viemos e entramos num mundinho à parte, com uma bela igreja branca do século XVII, encimada por telhas vermelhas, ao lado de um cemitério bem cuidado, com uma escola e uma biblioteca (construída com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian), um jardim e muitas árvores de fruto.


A Igreja de Tugu ou Gereja Tugu (a palavra indonésia gereja vem do português).

Cemitério de Tugu.
______________________________


Continuando mais para Este, mais para dentro, atravessamos o rio Cakung e vamos dar à aldeia propriamente dita, formada por ruelas retas e perpendiculares onde encontramos pequenas moradias com alpendres e vasinhos com flores. Nesta aldeia não vive apenas a comunidade de Tugu, vivem também indonésios de outras partes do arquipélago: das ilhas Celebes, das ilhas Molucas ou doutras regiões de Java.

Neste momento, vocês devem estar a perguntar-se o que é que a comunidade de Tugu terá de especial para eu perder tanto tempo e palavras a descrever a sua aldeia...

Há várias versões da origem da comunidade de Tugu. A mais comummente aceite é a de que se trata de uma comunidade de descendentes de mestiços Portugueses e de antigos escravos de Portugueses: um grupo de Mardjikers que habitava a então chamada Batavia (nome por que era conhecida Jacarta nos tempos da administração holandesa).

Para compreender quem eram os Mardjikers, é preciso um pouco mais de História.

Jacarta foi conquistada pelos Holandeses em 1619 e grande parte da sua população não era indígena. Inicialmente, vieram habitantes da costa de Coromandel e da costa do Malabar na Índia, recrutados pelos Holandeses para trabalhar como soldados do exército colonial e como guardas para manter a paz em Batavia, impedindo revoltas locais. Estes homens eram apelidados de Mardjikers (termo do sânscrito atribuído no período Hindu a religiosos ou monges que não pagavam impostos), pois estavam isentos de pagar impostos. Mais tarde, surgiram escravos oriundos das ilhas Molucas, que trabalhavam nos navios ou na construção de fortes, estradas e outros projetos. Por bom comportamento ou pelos bons serviços prestados, estes escravos eram muitas vezes libertados – e passavam a ser chamados Mardjikers também, não porque não pagassem impostos, mas porque eram livres. Finalmente, depois do declínio do império colonial português no Sudeste Asiático em meados do século XVII, chegaram comerciantes, artesãos e aventureiros oriundos de Malaca, Ceilão, Cochim e Calecute – estes estrangeiros, com mais talento, conhecimento e experiência no convívio com os Europeus, tornaram-se funcionários públicos, proprietários de lojas e empregados em entrepostos comerciais. Socialmente, misturavam-se com os Mardjikers. Estas três levas de emigrantes acabaram por se fundir numa comunidade mais ou menos homogénea durante o século XVII. Eram os chamados “Portugueses Negros”. Esta denominação vem do facto de esta população ser maioritariamente de pele mais escura do que os malaios, por fazerem parte de comunidades de "cafres", ou seja, africanos da costa oriental levados, primeiramente por portugueses e mais tarde por britânicos, para as costas da Índia. O que é que esta gente – de países e regiões diferentes; de grupos sociais, culturais e profissionais diferentes – tinha em comum? A língua e a religião.

Todas estas pessoas tinham vindo de regiões onde Portugal estivera presente, quer como potência colonizadora quer apenas como agente comercial, tendo sofrido a influência da língua, religião e cultura portuguesas. Todas elas adotaram o Português como língua de comunicação e durante quase dois séculos o Português foi efetivamente a língua de comunicação em Batavia: entre Europeus e nativos de diferentes países e mesmo entre os próprios Asiáticos que vinham dos seus diferentes países para Batávia. Ao contrário do que se imaginaria, a religião dos “Portugueses Negros” não era o catolicismo. Todos eles foram convertidos ao Calvinismo em Batávia, devido às imposições rígidas dos Holandeses – que, no entanto, não conseguiram converter-lhes a língua.

Os Tugu descendem de um grupo de Mardjikers a quem os Holandeses ofereceram um terreno (onde fica a aldeia de Tugu), em 1661, pelos bons serviços prestados à Companhia das Índias Orientais.

Apesar de todas as vicissitudes, este pequenino enclave manteve vivo um crioulo de base lexical portuguesa, o Papiá Tugu, até 1978 – ano em que morreu Jacob Quiko, o então chefe da comunidade e único falante da língua. Atualmente, esse crioulo sobrevive apenas nas letras das canções de Keroncong que eles cantam.


Andre Michiels, o chefe da comunidade, com crianças de Tugu - cantando e tocando Keroncong.
____________________________________

O Keroncong é um tipo de música que nasceu no seio desta comunidade e que é hoje em dia considerado um tipo de música nacional de grande popularidade. A sua origem remonta ao século XVI, quando marinheiros portugueses trouxeram com eles a sua música e instrumentos ao arquipélago indonésio.

No entanto, é também possível sentir uns resquícios desse belíssimo crioulo, muito semelhante àquele falado em Malaca, em algumas expressões quotidianas que ficaram cristalizadas e que os membros da comunidade ainda usam.

Os Tugu são protestantes. Fazem questão de assumir e exibir a sua diferença relativamente aos “outros”. Orgulham-se da sua ascendência portuguesa, gostam de beber vinho, de comer carne de porco, dançam aos pares, falam com brio da sua fisionomia europeia e dos seus narizes longos, riem-se desbragadamente e dão-se a comentários brejeiros (o que contrasta imenso com a cultura javanesa que preza a moderação e a cerimónia) e adoram conviver, cantar e dançar.

Em 2008, a então Leitora do Instituto Camões em Jacarta, Maria Emília Irmler, criou – com a assistência de uma jovem indonésia que aprendera danças tradicionais portuguesas em Macau, a Pipita – um grupo de danças tradicionais portuguesas constituído por membros da comunidade. São os Romeiros de Tugu. *


Os Romeiros de Tugu no Navio Sagres.
___________________

Finalizemos, então, com uma música Keroncong chamada “Kafrinju”, que fala sobre uma mestiça portuguesa de Goa, cantada em crioulo de Tugu pelo chefe da comunidade: Andre Michiels. O termo "Cafrinho" vem de "cafre", que mencionei acima. A Cafrinha é, assim, uma forma musical comum a várias comunidades luso-asiáticas desde o Sri-Lanka, à Malásia e à Indonésia, que remonta ao folclore crioulo português de África, que chegou à Ásia a bordo dos navios portugueses. Reparem na execução instrumental desta cantiga kafrinha da comunidade de Tugu, que é magnífica - autêntico jazz crioulo!


 Deixo-vos, também, um gostinho do crioulo Tugu com a belíssima letra da canção Keroncong  - “Moresco”, provavelmente uma canção popular entre os marinheiros portugueses do século XVI.


Moresco


Anda-anda na bordi di mare
Mienj korsan nunka contenti
Io buska ja mienja amada
Nunka sabe ela já undi

Io buska mienja amada
Ia mienja noiba mienja amoor
Io buska até tuda banda
Isti corsan teeng tantu door

Io prunta fula e strella
Bosoter munka ola un tenti
Fula e strella nunka resposta
Mienj korsan nunka kontenti

O, bie aki mienja amada
Mienja noiba, o moler bonito
Io espara con esparansa
E canta contigo Moresco

Anda, anda pela borda do mar
O meu coração nunca está contente
Eu busco a minha amada
Nunca sei onde ela está

Eu busco a minha amada
A minha noiva, o meu amor
Eu busco-a por todo o lado
Este coração tem tanta dor

Eu pergunto a uma flor e a uma estrela
“Vocês viram-na?”
A flor e a estrela nunca respondem
O meu coração nunca está contente

Ó, vem aqui minha amada
Minha noiva, ó mulher bonita
Eu espero-te na esperança
De cantar contigo o Moresco

a casa do canal

.

No início, perdia-me por Jacarta. Fazia o impossível – caminhava a pé pelas largas e longas avenidas: tropeçava nos buracos dos passeios, tossia os vapores das motas, olhava o mapa na esperança de estar perto do lugar que me tinha proposto como meta para esse dia – um parque, um centro comercial, um museu, uma igreja – e continuava por ali fora, para pasmo dos locais com que me cruzava. Já me deixei disso há algum tempo. É muito cansativo, traz-me novos pontos negros à pele e inquieta-me. Ora, eu caminho para relaxar, não para me enervar. Aconteceu-me explorar todas as linhas do autocarro Transjakarta. Um autocarro sofisticado, com ar condicionado e a sua via particular na estrada, o que o impede de ficar encalacrado no tráfego.



Ancol, Gambir, Blok M, Ragunan, Kota – you name it. Cheguei a todo o lado de Transjakarta. Às vezes, esperava horas até conseguir entrar num autocarro, devido ao excesso de gente que se acotovelava na fila desordenada e larga; pela primeira vez senti o que era ser levada pela corrente num mar de gente. Lembro-me de uma noite, na paragem de Tosari, em que me sentindo arrastada por uma turba impaciente e suada e temendo cair no intervalo que há entre a plataforma e a entrada do autocarro gritei “Pelan-pelan! Hati-hati!” (“Devagar! Cuidado!”), fazendo as pessoas abrandar e desatar a rir às gargalhadas. Eu também me ri, fui a rir até casa e ainda agora me rio sozinha quando me lembro. Mas é verdade que nessa altura tinha mais sentido de humor e que agora tenho muito pouco. Agora acontece-me bufar, resmungar entre dentes e sentir que as pessoas não são pessoas mas obstáculos que me impedem de viver como eu quero. Notoriamente, eu ando errada.

Caminhando pelas avenidas veem-se coisas interessantes. Hoje saí de manhã para comprar umas prendas de Natal e, no caminho entre a paragem de Dukuh Atas e o Plaza Indonesia,  passo na parte de cima de um viaduto. Olhando para o lado, reparei num estendal de roupa, entre o canal cheio de lixo e a estrada, naquele cantinho sob a ponte. Debruçando-me um pouco e olhando mais para dentro, pude ver uma casinha improvisada de cimento com telhado de colmo. Senti uma paz enorme olhando as roupas esvoaçando entre os fumos da cidade, com um escasso caniçal de bambus por trás; fazendo um zoom, era mesmo possível esquecer a paisagem urbana e fria circundante, e sentir o calor da pacatez no campo.



Puxei da máquina fotográfica e segundos depois surgiu uma velhota. A dona da casa. Uma senhora que mora debaixo da ponte em Jacarta, entre um canal de água suja e uma estrada de asfalto sujo, mas que mantém o terreno à volta da casa varrido e limpo, a roupa lavada e as canas de bambu bem tratadas. Esta gente que veio das aldeias nos campos de Java e de outras ilhas para a grande metrópole em busca de trabalho, e que vive agora entre os excrementos da grande cidade, percorrendo-lhe o corpo áspero sem sapatos.
Pedem esmola,
vendem comida nos seus carrinhos de mão,



vendem jornais balões livros águas brinquedos gelados amendoins nas estradas ao semáforo encarnado,
são taxistas de mota,



 escolhem o lixo das ruas para o separar e ganhar uns trocos em postos de reciclagem,



desentopem os canais em período de chuvas – quando transbordam e provocam inundações devido à acumulação de lixo –,
ajudam a controlar o tráfego;
as crianças alugam guarda-chuvas gigantes quando cai uma enxurrada de chuva inesperada e correm descalças e semi-nuas pela lava fresca e benéfica da água milagreira que lhes trará umas notas quentes de rupias.
O povo que habita as ruas de Jacarta.

a travessia

.
.
Na sexta-feira passada, de manhã, esperava o comboio, como habitual. Voltei a ver aquele rapaz que uns posts atrás encontrei a enxotar água para os carris de comboio, num fim de tarde chuvoso. Ele vive na estação de comboio de Tebet, acho eu. Não sei se terá pais. Vejo-o sempre sozinho, ora de manhã, quando parto, ora ao fim da tarde, quando regresso. Ele estava na plataforma de lá, com aquele olhar vazio, com aquelas olheiras gritantes, sem amor sem nada, sem expressão, sem esperança. Lançou-se num repente para os carris e atravessou a linha, vinha para cá. Esticou uma perna sobre a plataforma, atirou com um saquinho de plástico e com uma vassoura de palha, atirou com o resto do seu corpo débil para o alcatrão já tão quente da manhã. Ficou um pouco sentado, absorto, e sorria, recompunha-se do esforço. Eu olhava-o, entre outros, de um banco de madeira, onde estava sentada, esperando, com o livro perdido entre as mãos. O rapaz sorria. Porquê? Finalmente, moveu-se, ajeitou-se na posição de cócoras, pegou na vassoura amiga e no saquinho de plástico, e começou a varrer o nada, o nada de nada, a passagem de desconhecidos, o vento do Expresso que passa sem parar, as formigas nervosas, os minutos, ele varria a nossa espera, ele varria o atraso do comboio, ele varria um quarto vazio, um restaurante prestes a abrir, uma sala de espera, o corredor de um hospital, a cama de um doente, o rio, o esgoto, ele varria a memória, a consciência, as suas certezas, ele varria-nos a todos dali, directos para os carris, ele varria.
Delicadamente, coloquei 2000 rupias no saquinho de plástico, e olhei-o com olhos de mãe. Enquanto ele varria os pesadelos, sem reparar em mim.

hantu-do-sol

.
.
Cheguei à quarta.
Arranjei uma password tão tramada para entrar na minha conta do google que nunca a consigo escrever bem logo à primeira.
Hoje, foi à quarta.

Antes de mais, penso na minha mãe, que chegará depois de amanhã ao Oriente, onde cruzará os seus braços com os meus braços. Troquei umas breves palavras com ela, há pouco, senti-a agitada, sensível, enfim, nada que uma pisciana não deva ser, fazendo as últimas compras para responder aos meus pedidos extravagantes de atum e polvo em lata e outras conservas, gel de lavagem para peles acneicas, sensodyne para os dentes, liquifilm para os olhos, chocolates portugueses para amizades indonésias, vinho (tinto e branco), filmes e livros, um sem-fim, tadinha da Mami... , e revi-a assim:

Séria, concentrada nas coisas mundanas, neste caso - congeladas - ... mas sempre com um certo estilo.
___________________________

Raramente dou pelo pôr-do-sol aqui. Aconteceu-me prestar maior atenção hoje, porque estava mais livre e porque há uns dias, falando das várias possibilidades do verbo "pôr" em aula, mencionei o "Pôr-do-Sol" - e fiquei angustiada (terão eles notado?! a minha angústia? a minha ignorância?). Angustiada, porque me apercebi de que eu não sabia o que era um pôr-do-sol na Indonésia. É verdade que aqui o crepúsculo dura um estalar de dedos. O crepúsculo equatorial... Rápido. E entre arranha-céus, então, rapidíssimo! Mas hoje estive à coca.
Vejam o que eu vi da minha varanda:


Um faixa alaranjada por detrás de uma cúpula moderna e de edifícios de apartamentos variegados.
____________________________

A mesma luz alaranjada reflectida num arranha-céus espelhado, perto de uma construção que costumo admirar com deleite da janela: reparem que à esquerda estão dois edifícios que parece que se beijam - o de cá é inclinado, como a Torre de Pisa.
________________________________


A mesma luz alaranjada reflectida na curva de um canal - que não é mais do que um esgoto aberto. Apesar de os holandeses terem premeditado os canais de Jacarta de forma bem diferente - como os de uma Amesterdão ou de uma Veneza... Mas que aqui não são mais do que lixo líquido. Ao lado, um cemitério, que eu quase todos os dias atravesso de ojek (os ojek invadem as ruelas de terra batida do cemitério como atalhos para fugir do trânsito das avenidas principais). [Na outra noite, vindo da estação Tebet para casa de ojek, como habitual, atravessámos aquelas passagens estreitas e como que proibidas... O rapaz-ojek gritava: "hantu!!", o que significa, em português, "fantasmas!!". Os indonésios são muito supersticiosos. Mas fazem tudo para escapar ao tráfego.]
________________________

Eis o pôr-do sol da minha varanda em Jacarta.
Hoje apreciei-o. E achei-o estranhamente belo.

pusing

Papéis na minha sala.
____________________

No outro dia, passeava por uma livraria. Comprei um livro que estava em promoção. Por coincidência o livro chama-se Culture Troubles e é uma espécie de estudo comparativo do Estado e da representação política em três países tão diferentes como a França, a Suécia e a Nigéria...! O que primeiro me chamou a atenção foram, naturalmente, as letras capitais anunciando a "Promosi!"; depois o título do livro - já que eu tenho andado "pusing" (o bahasa para "com dores de cabeça" - não é tão mais simples?! "saya pusing" e está tudo dito - "estou com dores de cabeça"!) por causa de muitas coisas, uma delas o esforço de compreender; finalmente, decidi-me quando li na contracapa que o ensaio recaía sobre as diferenças culturais entre três países e a forma como isso afectava a sua política - e eis que um dos países contemplados é a Nigéria! E eis-me a comprar um livro sobre a Nigéria na Indonésia...

A minha sala está com tantos papéis e eu estou com tantos papéis na minha cabeça, manuais sobre manuais, fichas sobre fichas, projectos que são como campos imensos de arroz onde me sinto perdida - sem saber como me mover por eles e como fazer para cultivar o raio do arroz - procrastinações (ó sim, tornei-me fã deste substantivo que me traz à mente a imagem de um escorpião ou de um caranguejo nem sei porquê... é uma palavra com pinças - tenho cá para mim), eu sei lá. Pusing pusing.

Hoje apanhei uma molha a vir de ojek para casa. Chovia tanto! O rapaz-ojek, preocupado, travava levemente entre as poças, olhava de soslaio para as minhas calças a conferir se não estavam muito molhadas, perguntava se eu não queria recolher-me sob a sua capa impermeável amarela... E eu molhava-me, tive de fechar os olhos - porque começavam a arder-me - e cheguei, de mansinho, a encostar a minha cabeça nas costas amarelas de quem me guiava, deixando-me simplesmente não pensar em nada. Bendito ojek!

Enquanto esperava pelo comboio, na estação da Universidade (1 hora à espera...), chovia chovia, e eu sentada sobre a trave de aço, a olhar para as poças e para a linha férrea molhada, cheia de pedras molhadas. Ao meu lado, estava uma menina como muitas meninas indonésias. Vestida com umas calças justas, umas sabrinas nos pés, uma camisola bonita, de tecido leve (não sei qual) e larga; a carinha redonda, os olhos grandes e ainda maiores pelas lentes de contacto de cor que usava (aqui está na moda usar dessas lentes - então, rapazes e raparigas, andam por aí com olhos de leopardo, com olhos amarelos, com olhos violeta, com olhos azul turquesa...), o cabelo preto preto, comprido e liso, apanhado num bem cuidado rabo-de-cavalo e uma franjinha sobre a testa, cuidadosamente puxada para o lado direito, culminando numa leve e sensual ondulação para cima, para o ar, para o céu, como uma antena. Entrou no mesmo comboio que eu, e enquanto esperava não tirou os dedos rápidos do seu telemóvel quadradão, largo e cheio de botões e coisas, entre outras internet e máquina fotográfica. Reparei que escrevia no facebook.

Poucos segundos antes de apanhar o ojek, percorria o cais da estação - porque tinha saído do comboio mesmo lá muito atrás e tinha de atravessar toda a plataforma até à saída. Olhando para a plataforma oposta, vi uma massa anónima de gente, esperando sobre os bancos mal ajeitados. Eram 7 da noite e a esta hora as pessoas que trabalham em Jacarta estão a regressar para as suas casas nos subúrbios, lá para os lados da minha Universidade. Pequenino e encolhido, entre a gente imperturbável, vi um menino, talvez de 11 ou 12 anos, a varrer a água para fora, para a via férrea, para ganhar umas poucas rupias em troca, como esmola. Muito magro, de cócoras, com perninhas de grilo, uns olhos grandes e vazios e um leve arroxeado sob eles, que presumi fossem olheiras, descalço, entre a água, enxotando-a para o lado e ela a ele regressando de cima, naquela tarefa inglória e indiferente para os que o rodeavam.

E então, de mansinho, nem sei se ele notou ou não, encostei a cabeça nas costas amarelas do ojek, enquanto ele me guiava pelas avenidas inundadas - largando-me na doçura do vento e do vazio.

o que é?


A Vina Novianti.
______________________

A Vina é a minha primeira amiga em Jacarta. Gosto muito dela, ainda que ela tenha muitos macaquinhos na cabeça, muitos fantasmas! Gosto dela porque acredito nela. E nós conversamos muito. Através dela, vou conhecendo melhor a Indonésia. No entanto, é sempre uma visão subjectiva - porque é a visão dela. E creio que ela é por vezes injusta com o seu próprio povo e país.
Mas através da Vina fui abrindo os olhos para uma peculiaridade dos indonésios. No início, eu não sabia nomeá-la, apercebia-me dela, por vezes incomodava-me, mas não sabia o que era. A minha amiga trouxe-me as palavras.
No geral, eu não consigo ver para além da cara destas pessoas. Como explicar? São pouco claros. Falta uma espécie de densidade, tridimensionalidade, de profundidade - que nos faz conhecer as pessoas.
Excluindo a Vina, ainda não consegui "conhecer" ninguém aqui. Ao contrários dos nigerianos - que de tão abertos até se tornavam, por vezes, agressivos, rudes - os indonésios são sempre dóceis e têm sempre um sorriso no rosto. Riem muito, mesmo que nem eu nem eles percebamos do que se estão a rir... É uma espécie de defesa e de máscara. E marca uma distância muito grande entre mim e eles, que me angustia.
Depois de uma conversa um pouco tortuosa com a Vina, passeando-nos pelas largas avenidas de Tugu (ihihih, isto é uma piada que só nós entendemos), comecei a pensar nas consequências de mais de 30 anos de ditadura, com o presidente Suharto. Mas achei que não podia ser só disso. Depois pensei na pobreza. Mas a Nigéria também é muito pobre e os meus alunos interrogavam-me constantemente e enquanto não percebiam algo insistiam até perceber ou quase perceber. E criticavam. Se achavam que eu não estava a explicar bem alguma coisa, diziam, e criticavam. E eu melhorava e explicava melhor. Por isso, achei que não podia ser só disso também. Pensei ainda na religião. 80% ou mais dos indonésios são muçulmanos. [um aparte - nunca vi ninguém que desse tanto a mendigos, por exemplo; às vezes, enquanto espero o comboio, vejo meninas de universidade, tão novinhas, a dar esmola a cada mendigo que passa... - o que é a religião? não é show-off?] Mas não consegui encontrar nesse facto uma justificação satisfatória para a minha grande questão!
Então acho que vem daquilo que eu sempre considerei nos asiáticos, que é a polidez. São inerentemente respeitosos e delicados na relação com o outro, principalmente se esse outro for um forasteiro.
E é paradoxal como essa delicadeza me desconforta, porque não há transparência - é só cerimónia.
E com a Vina percebi que isso cria todo um submundo que vai alimentando as pessoas e compensando a sua contenção - como as telenovelas. Por não falarem aberta e directamente sobre aquilo que pensam, canalizam todas as suas opiniões caladas num subterrâneo de intrigas, historietas, por vezes mesquinhas, e invenções. A clara origem do drama.

ojek



Aqui a melhor forma de circular é de "ojek". Apanhamos a motita, pagamos 10.000 rupias (cerca de 80 cêntimos) e lá vamos, de capacete à banda (os capacetes ficam-me sempre demasiado largos e não os posso ajustar, porque a mola está sempre estragada ... Então vou assim, disfarçada de protegida, às vezes a mão sobe ao capacete.... mas... há sempre esta imensa sensação.... de...).
Vemos famílias completas sobre as motos. Desta vez, apanhei um casal com os dois filhos; mas há vezes em que vão cinco ou seis sobre o frágil dorso mecânico.
Eu vou para a estação de comboio de "ojek". Para a estação de "Tebet", a poucos quilómetros de minha casa - mas por onde não passa o autocarro. De Tebet vou directamente para a estação da Universitas Indonesia, onde ensino.
Sento-me e vou - e eles já me conhecem, e perguntam "Tebet?" - e quando regresso perguntam "Taman Rasuna enam?" , que significa "Taman Rasuna, torre seis?".
E cá está o habitual, como todos temos, o rotineiro...
Mas a vocês a minha rotina parece-vos diferente, não é? Mas é tão rotina quanto a vossa...