Mostrar mensagens com a etiqueta diário/ daily. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta diário/ daily. Mostrar todas as mensagens
adeus, Jacarta
Já não estou na Indonésia como leitora de Português. Decidi voltar para Portugal e sinto-me em paz. Soube que, infelizmente, nenhum leitor foi contratado pelo Instituto Camões para me substituir. O que continuei da anterior leitora e o que comecei ficará pendente no espaço das coisas inacabadas; como um edifício embargado, como uma ponte sem todos os pilares e com as suas veias metálicas de fora do tabuleiro interrompido. Os cortes orçamentais em tempos de crise atingem sempre o essencial. Eis que não há dinheiro para manter leitores em países onde eles são necessários, desejados e procurados. Espero vir a continuar aqui projetos que iniciei lá, como a elaboração de um dicionário de indonésio-português, que ainda não existe. Aprendi a língua indonésia e aprendi a ser mais tolerante com as pessoas que são diferentes de mim. Compreendo melhor que nem todos se norteiam com os mesmos conceitos e pelos mesmos princípios que eu e que isso não tem nada de condenável ou de errado; que, em determinados contextos, o que precipitada e impacientemente consideramos falta de educação, incivismo ou barbárie é apenas diferença cultural – sendo nós, geralmente, demasiado arrogantes, limitados e judicativos para tentar abarcar padrões conceptuais diferentes dos nossos. Apesar de compreender, não tive forças para continuar a viver numa cidade – Jacarta – onde tudo era tão diferente da minha Lisboa, onde me sentia demasiado só, onde me custava respirar e onde não conseguia repousar. Já me aconteceu pensar que o bicho da viagem é um parasita que se hospedou em mim permanentemente. Não me quero armar em Gonçalo Cadilhe, mas talvez seja verdade. O que experiencio com as viagens, o que encontro em mim, o que descubro na vida e no mundo, o que me ensinam as pessoas com quem me cruzo – é sublime. Mas também estar aqui sentada ao computador, em Benfica onde moro agora, com a minha cadela roncando aconchegada aos meus pés, os meus livros perto de mim e a pastelaria ali em frente – também isto pode ser magnífico, e é. Sentir-me parte deste bairro e conversar amigavelmente com os vizinhos enquanto tomo a bica ou estou na fila do supermercado; sem cansaço, sem esforço, sem mal-entendidos.
a casa do canal
.
No início, perdia-me por Jacarta. Fazia o impossível – caminhava a pé pelas largas e longas avenidas: tropeçava nos buracos dos passeios, tossia os vapores das motas, olhava o mapa na esperança de estar perto do lugar que me tinha proposto como meta para esse dia – um parque, um centro comercial, um museu, uma igreja – e continuava por ali fora, para pasmo dos locais com que me cruzava. Já me deixei disso há algum tempo. É muito cansativo, traz-me novos pontos negros à pele e inquieta-me. Ora, eu caminho para relaxar, não para me enervar. Aconteceu-me explorar todas as linhas do autocarro Transjakarta. Um autocarro sofisticado, com ar condicionado e a sua via particular na estrada, o que o impede de ficar encalacrado no tráfego.
No início, perdia-me por Jacarta. Fazia o impossível – caminhava a pé pelas largas e longas avenidas: tropeçava nos buracos dos passeios, tossia os vapores das motas, olhava o mapa na esperança de estar perto do lugar que me tinha proposto como meta para esse dia – um parque, um centro comercial, um museu, uma igreja – e continuava por ali fora, para pasmo dos locais com que me cruzava. Já me deixei disso há algum tempo. É muito cansativo, traz-me novos pontos negros à pele e inquieta-me. Ora, eu caminho para relaxar, não para me enervar. Aconteceu-me explorar todas as linhas do autocarro Transjakarta. Um autocarro sofisticado, com ar condicionado e a sua via particular na estrada, o que o impede de ficar encalacrado no tráfego.
Ancol, Gambir, Blok M, Ragunan, Kota – you name it. Cheguei a todo o lado de Transjakarta. Às vezes, esperava horas até conseguir entrar num autocarro, devido ao excesso de gente que se acotovelava na fila desordenada e larga; pela primeira vez senti o que era ser levada pela corrente num mar de gente. Lembro-me de uma noite, na paragem de Tosari, em que me sentindo arrastada por uma turba impaciente e suada e temendo cair no intervalo que há entre a plataforma e a entrada do autocarro gritei “Pelan-pelan! Hati-hati!” (“Devagar! Cuidado!”), fazendo as pessoas abrandar e desatar a rir às gargalhadas. Eu também me ri, fui a rir até casa e ainda agora me rio sozinha quando me lembro. Mas é verdade que nessa altura tinha mais sentido de humor e que agora tenho muito pouco. Agora acontece-me bufar, resmungar entre dentes e sentir que as pessoas não são pessoas mas obstáculos que me impedem de viver como eu quero. Notoriamente, eu ando errada.
Caminhando pelas avenidas veem-se coisas interessantes. Hoje saí de manhã para comprar umas prendas de Natal e, no caminho entre a paragem de Dukuh Atas e o Plaza Indonesia, passo na parte de cima de um viaduto. Olhando para o lado, reparei num estendal de roupa, entre o canal cheio de lixo e a estrada, naquele cantinho sob a ponte. Debruçando-me um pouco e olhando mais para dentro, pude ver uma casinha improvisada de cimento com telhado de colmo. Senti uma paz enorme olhando as roupas esvoaçando entre os fumos da cidade, com um escasso caniçal de bambus por trás; fazendo um zoom, era mesmo possível esquecer a paisagem urbana e fria circundante, e sentir o calor da pacatez no campo.
Puxei da máquina fotográfica e segundos depois surgiu uma velhota. A dona da casa. Uma senhora que mora debaixo da ponte em Jacarta, entre um canal de água suja e uma estrada de asfalto sujo, mas que mantém o terreno à volta da casa varrido e limpo, a roupa lavada e as canas de bambu bem tratadas. Esta gente que veio das aldeias nos campos de Java e de outras ilhas para a grande metrópole em busca de trabalho, e que vive agora entre os excrementos da grande cidade, percorrendo-lhe o corpo áspero sem sapatos.
Pedem esmola,
vendem comida nos seus carrinhos de mão,
vendem jornais balões livros águas brinquedos gelados amendoins nas estradas ao semáforo encarnado,
são taxistas de mota,
escolhem o lixo das ruas para o separar e ganhar uns trocos em postos de reciclagem,
desentopem os canais em período de chuvas – quando transbordam e provocam inundações devido à acumulação de lixo –,
ajudam a controlar o tráfego;
as crianças alugam guarda-chuvas gigantes quando cai uma enxurrada de chuva inesperada e correm descalças e semi-nuas pela lava fresca e benéfica da água milagreira que lhes trará umas notas quentes de rupias.
O povo que habita as ruas de Jacarta.
Etiquetas:
diário/ daily,
Jacarta,
os Indonésios/ Indonesian People
meias palavras bastam
| num mercado flutuante da Tailândia |
_____________________________
o que é que podemos saber? o quê? se cada vez que buscamos confirmação de algo só nos surgem as meias palavras de sempre. será que alguém sabe dizer o que pensa, o que quer e o que sente? a relação humana é tão conflituosa e nunca será demais dizer que a culpa é da linguagem. como se pode amar verdadeiramente, enquanto dependendo da linguagem? só mesmo no estado bestial poderemos amar. eu tento encontrar as palavras para o que estou a sentir, para que vos possa explicar, para que me entendam, para que haja uma ligação entre nós, e me admirem, e prezem os meus posts e o meu blog e eu na totalidade. e haja a mínima concorrência de sensações ou sentimentos na palavra escrita e já vocês dizem que o que eu escrevo é belo. incrível como a beleza da literatura reside tão somente na psicologia. numa lucidez muito incomum da hermenêutica humana, que nos leva a chorar, exclamar, descansar, odiar enquanto lemos. que complicação, estes cérebros! mas que cobardia ignorá-los! e o meio termo entre a cobardia e a clarividência será esta vida medíocre que é a de todos nós, enredados pelos joelhos numa telenovela ou tragédia grega onde nunca dizemos o que queremos dizer e muito menos o que de facto sentimos porque nem sequer compreendemos as nossas próprias perplexidades. mas ser clarividente deve ser um fardo, se não formos Buda. estar aqui ou não estar, falar ou não falar, não compreender, tentar compreender ou compreender, amar, gostar, não gostar, odiar, cantar, esquecer, dedilhar, beber, correr, nadar, olhar pelas frestas de um mar sempre tão rugoso, como eu gosto, mar bravio. e agora olho para trás e o que é que eu escrevi que faça sentido? muito pouco, e no entanto entreguei-me à tela como raras vezes sucede. há uma ligação entre nós e uma sabedoria transcendente, e quando desligamos e deixamos os nossos dedos viver como debulhadoras entre o trigo eles tornam-se antenas poderosas que nos transmitem as imagens, toscamente dedilhadas, do infinito e da sabedoria iluminada. eles vão sem pedir licença, sem cerimónias nem formalidades, na sua carne flexível e muda, até aos segredos e descrevem-nos usando o nosso parco intelecto. há palavras que são escritas sem nos apercebermos, e essas vêm diretamente do divino. viver entre os humanos não nos deixa evoluir muito, e eu tenho de olhar para os meus dedos quotidianamente para relembrar que há antenas poderosas a ligar-me a um universo maior do que o dicionário do Houaiss, onde posso descansar e ao mesmo tempo traduzir este labor do dia-a-dia e escrevê-lo para um ninguém que é ao mesmo tempo todas as pessoas que entrem na casa http://dariportugisdiindonesia.blogspot.pt. eu bem tento compreender, eu tento, e tento entender as meias palavras das pessoas, os sorrisos, os olhares e às vezes até as palavras supostamente diretas – e não entendo nada. há uma escuridão maior do que a noite num cemitério de aldeia, eu não vejo, tateio e não vejo, e quando tento ver sempre alguém volta àquelas palavras que me fazem ser estúpida de novo, quando me arrojo alguém sempre me cala e me faz voltar à realidade das meias palavras, as palavras simpáticas, diplomáticas, leves, compreensíveis, fáceis, sensibilonas, apaziguadoras, falsas da nossa vida. como é que me arranco deste estado e não deixo de ser responsável – é a minha grande questão. nos entretantos, vou regozijando nas meias palavras, porque as há reais ou literárias, e capto a transmissão de Saramago: Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem.
O Fruto do Dragão ou Pitaia
Eis outro fruto exótico que encontro no supermercado em frente da minha casa. Chama-se "dragon fruit" e tem estas cor e feitio que lembram, de facto, ou o lombo de um dragão ou as misteriosas chamas que aquele expele quando está irritado.
Este fruto nasce de uma espécie de cacto.
É extremamente generoso. Penetrando-o com a faca afiada e fazendo-lhe uma incisão de 360 graus, sentimos uma mole polpa, depois de perfurada a cútis espessa mas dócil do fruto-animal. Tem uma carne abundante, branca e crivada de bandos de sementes pretas que se prestam agradavelmente ao nosso palato.
Tem um sabor excessivamente doce (para as minhas papilas gustativas), que de tão doce até se torna de final amargo. Em suma, não é um fruto das minhas preferências, em termos palatais, mas em termos estéticos preenche todos os requisitos da minha sensibilidade!
Desfrutem!
Melancia amarela indonésia para a Anabela
Queridíssima Anabela, minha mais-que-amiga,
eis a prometida melancia amarela, directa do supermercado em frente da minha casa, e ofereço-ta como prenda de aniversário tardia ou como prenda de Natal prematura - como queiras.
Desfruta! ;-P
o alfarrabista
.
.
Era uma vez dois livros que eu comprei. Não sei o que são, não sei de que são.
Há um alfarrabista no Pasar Festival, um pequeno centro comercial perto da minha casa. Costumo ir lá beber café, petiscar, jantar num restaurante indiano, menos frequentemente almoçar num restaurante japonês, comprar DVDs piratas e - finalmente - perder-me numa loja rectangular e familiar, com cheiro de livros antigos, molhados pela humidade, com revistas variadas, e um silêncio incomum.
Vou lá para relaxar, agarro os livros e respiro-lhes a sujidade e a espera, olho para os títulos, por vezes encontro umas pérolas oportunas.
Comprei estes dois livros. Comecei a ler um deles, que fala sobre o erotismo e o sexo na China, na sua literatura e na sua sociedade. Deu-me para sorrir no comboio, enquanto desvendava um mistério novo. Não passei do segundo parágrafo, porque ambos os parágrafos me enfadaram um pouco - mas hei-de ler o livro até ao fim.
No outro dia perguntavam-me quando se usava a construção de hei-de com infinitivo. Pois eu digo que a usamos quando fazemos uma promessa a nós mesmos pressentindo que nunca a iremos realizar.
Este alfarrabista fica em frente de um pavilhão de bowling e entre um cabeleireiro e um espaço improvisado para massagens em cadeiras ergonómicas.
Enquanto cheirava os livros e acalmava os nervos, olhava de esguelha para um dos empregados, que fixava preços em acervos recém-chegados. Sentado num banco, com um caixote à frente, ia dele retirando sem afectos livro a livro e com uma pistola de etiquetagem ia escolhendo os preços para cada um. Olhava o livro, primeiro de perto, depois afastava-o um pouco como que para ter uma boa visão de conjunto, virava-o para lamber com os olhos a contracapa e tumba - decidia o preço. Abrir o livro? Para quê? E inspirada por ele, assim escolhi os meus novos livros.
Há um alfarrabista no Pasar Festival, um pequeno centro comercial perto da minha casa. Costumo ir lá beber café, petiscar, jantar num restaurante indiano, menos frequentemente almoçar num restaurante japonês, comprar DVDs piratas e - finalmente - perder-me numa loja rectangular e familiar, com cheiro de livros antigos, molhados pela humidade, com revistas variadas, e um silêncio incomum.
Vou lá para relaxar, agarro os livros e respiro-lhes a sujidade e a espera, olho para os títulos, por vezes encontro umas pérolas oportunas.
Comprei estes dois livros. Comecei a ler um deles, que fala sobre o erotismo e o sexo na China, na sua literatura e na sua sociedade. Deu-me para sorrir no comboio, enquanto desvendava um mistério novo. Não passei do segundo parágrafo, porque ambos os parágrafos me enfadaram um pouco - mas hei-de ler o livro até ao fim.
No outro dia perguntavam-me quando se usava a construção de hei-de com infinitivo. Pois eu digo que a usamos quando fazemos uma promessa a nós mesmos pressentindo que nunca a iremos realizar.
Este alfarrabista fica em frente de um pavilhão de bowling e entre um cabeleireiro e um espaço improvisado para massagens em cadeiras ergonómicas.
Enquanto cheirava os livros e acalmava os nervos, olhava de esguelha para um dos empregados, que fixava preços em acervos recém-chegados. Sentado num banco, com um caixote à frente, ia dele retirando sem afectos livro a livro e com uma pistola de etiquetagem ia escolhendo os preços para cada um. Olhava o livro, primeiro de perto, depois afastava-o um pouco como que para ter uma boa visão de conjunto, virava-o para lamber com os olhos a contracapa e tumba - decidia o preço. Abrir o livro? Para quê? E inspirada por ele, assim escolhi os meus novos livros.
Etiquetas:
devaneios/ reveries,
diário/ daily,
Jacarta,
livros/ books
citação da noite

"Esta vida pode ser tão fácil, se a gente se esforçar por isso, pá."
in Noite Escura, um filme de João Canijo.
Etiquetas:
devaneios/ reveries,
diário/ daily,
visões/ visions
sem nós, o que seria deles?

Reli-o.
Lembrava-me de um certo incómodo, da primeira vez que o li. Não me lembrava bem porquê. Pensava que seria por versar a guerra. No entanto, lembrava-me também do espanto e da paixão. Depois de ler este livro, com o qual descobri este magnífico romancista que foi o Pierre Boulle, desatei a devorar o senhor. E, com ainda maior espanto, li, por exemplo, Le Planete des Singes, e outros - ainda mais belos a meu ver - como Pour amour de l'Art e Le Professeur Mortimer.
Incomoda-me lê-lo. E que mais se deve esperar de um bom romancista?
Mas, nesta segunda leitura da famosa ponte sobre o rio Kwai, mais conhecida pelo filme do que pelo autor, fiquei chocada.
E depois, admirada. E depois, grata.
Passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Estamos na Ásia. Colónias inglesas e holandesas foram ocupadas pelos japoneses. Militares ingleses, entre outros, são prisioneiros num campo de trabalho forçado liderado por um bruto coronel japonês. A missão: construir uma ponte sobre o rio Kwai, na fronteira entre a Birmânia (Mianmar) e a Tailândia, para que seja concluída, por linha ferroviária, a ligação entre Banguecoque e Rangoon (Yangon), de forma a que a armada japonesa chegue a Bengala, ocupando assim a Índia.
Porquê chocada? Por isto:
"'What fools they are, sir!', said Clipton looking closely at the Colonel. 'To think that, without us, they would have built their bridge in a swamp and it would have capsized under the weight of their trains loaded with troops and supllies!'
There was a strange glint in his eyes as he spoke, but the Colonel's face remained inscrutable.
'Yes, aren't they?' he solemnly replied. 'They're what i've always said they were: primitive people, as undeveloped as children, who've acquired a veneer of civilisation too soon. Underneath it all they're absolutely ignorant. They can't do a thing by themselves. Without us, they'd still be living in the age of sailing ships and wouldn't own a single aircraft. Just children... yet so pretentious as well. Think of it, a work of this importance! As far as i can make out, they're only just capable of making a footbridge out of a jungle creepers'"
E este é um pequeno exemplo do discurso racista que grassa pelo pequeno livro inteiro.
No fim, ficou-me a admiração. Primeiro, porque apesar de me coçar por causa dessa ideologia extremista que vislumbrava e que me inquietava, não conseguia deixar de admirar a mestria narrativa, o suspense, as minuciosas descrições, a envolvente análise psicológica. Depois, porque - fosse ou não a intenção do autor (e creio que sim; sendo ele o mesmo que escreveu uma obra como o Planeta dos Macacos, onde satiriza encantadoramente e em jeito de ficção científica a alta conta em que os humanos se têm) - derrotada e alegre ao mesmo tempo, cheguei ao fim com a presença divina da Ironia e com a sensação de que "a complexidade e o método ocidentais e anglo-saxónicos" (palavras do autor) são tão separados desta vida, o que quer que ela seja, são tão abstractos, tão sem escopo para além da sua própria auto-contemplação, que me dão uma imensa vontade de rir.
Obrigada, Pierre Boulle.
Lembrava-me de um certo incómodo, da primeira vez que o li. Não me lembrava bem porquê. Pensava que seria por versar a guerra. No entanto, lembrava-me também do espanto e da paixão. Depois de ler este livro, com o qual descobri este magnífico romancista que foi o Pierre Boulle, desatei a devorar o senhor. E, com ainda maior espanto, li, por exemplo, Le Planete des Singes, e outros - ainda mais belos a meu ver - como Pour amour de l'Art e Le Professeur Mortimer.
Incomoda-me lê-lo. E que mais se deve esperar de um bom romancista?
Mas, nesta segunda leitura da famosa ponte sobre o rio Kwai, mais conhecida pelo filme do que pelo autor, fiquei chocada.
E depois, admirada. E depois, grata.
Passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Estamos na Ásia. Colónias inglesas e holandesas foram ocupadas pelos japoneses. Militares ingleses, entre outros, são prisioneiros num campo de trabalho forçado liderado por um bruto coronel japonês. A missão: construir uma ponte sobre o rio Kwai, na fronteira entre a Birmânia (Mianmar) e a Tailândia, para que seja concluída, por linha ferroviária, a ligação entre Banguecoque e Rangoon (Yangon), de forma a que a armada japonesa chegue a Bengala, ocupando assim a Índia.
Porquê chocada? Por isto:
"'What fools they are, sir!', said Clipton looking closely at the Colonel. 'To think that, without us, they would have built their bridge in a swamp and it would have capsized under the weight of their trains loaded with troops and supllies!'
There was a strange glint in his eyes as he spoke, but the Colonel's face remained inscrutable.
'Yes, aren't they?' he solemnly replied. 'They're what i've always said they were: primitive people, as undeveloped as children, who've acquired a veneer of civilisation too soon. Underneath it all they're absolutely ignorant. They can't do a thing by themselves. Without us, they'd still be living in the age of sailing ships and wouldn't own a single aircraft. Just children... yet so pretentious as well. Think of it, a work of this importance! As far as i can make out, they're only just capable of making a footbridge out of a jungle creepers'"
E este é um pequeno exemplo do discurso racista que grassa pelo pequeno livro inteiro.
No fim, ficou-me a admiração. Primeiro, porque apesar de me coçar por causa dessa ideologia extremista que vislumbrava e que me inquietava, não conseguia deixar de admirar a mestria narrativa, o suspense, as minuciosas descrições, a envolvente análise psicológica. Depois, porque - fosse ou não a intenção do autor (e creio que sim; sendo ele o mesmo que escreveu uma obra como o Planeta dos Macacos, onde satiriza encantadoramente e em jeito de ficção científica a alta conta em que os humanos se têm) - derrotada e alegre ao mesmo tempo, cheguei ao fim com a presença divina da Ironia e com a sensação de que "a complexidade e o método ocidentais e anglo-saxónicos" (palavras do autor) são tão separados desta vida, o que quer que ela seja, são tão abstractos, tão sem escopo para além da sua própria auto-contemplação, que me dão uma imensa vontade de rir.
Obrigada, Pierre Boulle.
passando a esfregona pelo chão da casa
.
.
Estava aqui ao computador, há seis horas atrás. Olhei para a varanda e vi as costas carnudas da minha mãe, encostadas contra o vidro. Ela fumava um cigarro, suspensa assim no ar. Olhei e gravei, pensando "esta é a última imagem que vou gravar da minha mãe aqui". E assim foi. Depois disso, aconteceram muitas coisas, de que me lembro, mas nenhuma imagem dessa corrente de acontecimentos ficou gravada na minha memória. Eu gosto muito da minha mãe. Quando era pequenina, escrevia-lhe poemas de amor e dizia que queria casar com ela. Há relações que são muito especiais. Lembro-me de a minha amiga Vina me ter dito, há uns tempos, "há pessoas que foram feitas para se conhecerem", e eu concordo com ela. De repente, a casa ficou um bocadinho calada. Lembrei-me de um filme querido, o Chungking Express, do Wong Kar-wai, onde o amante abandonado espremia as toalhas, os tapetes, as camisolas, e passava a esfregona pelo chão, incessantemente - porque a casa chorava uma ausência muito grande, toda a casa, e todas as pequenas coisas dentro da casa, choravam.
Assim chora a minha casinha pela Mámi, que veio com cigarros e com alguns suspiros de calor e de impaciência, mas também com a sua força de Mãe - veio passar a Mão pela nossa cabecinha.
Assim chora a minha casinha pela Mámi, que veio com cigarros e com alguns suspiros de calor e de impaciência, mas também com a sua força de Mãe - veio passar a Mão pela nossa cabecinha.
hantu-do-sol
.
.
Cheguei à quarta.
Arranjei uma password tão tramada para entrar na minha conta do google que nunca a consigo escrever bem logo à primeira.
Hoje, foi à quarta.
Antes de mais, penso na minha mãe, que chegará depois de amanhã ao Oriente, onde cruzará os seus braços com os meus braços. Troquei umas breves palavras com ela, há pouco, senti-a agitada, sensível, enfim, nada que uma pisciana não deva ser, fazendo as últimas compras para responder aos meus pedidos extravagantes de atum e polvo em lata e outras conservas, gel de lavagem para peles acneicas, sensodyne para os dentes, liquifilm para os olhos, chocolates portugueses para amizades indonésias, vinho (tinto e branco), filmes e livros, um sem-fim, tadinha da Mami... , e revi-a assim:
Arranjei uma password tão tramada para entrar na minha conta do google que nunca a consigo escrever bem logo à primeira.
Hoje, foi à quarta.
Antes de mais, penso na minha mãe, que chegará depois de amanhã ao Oriente, onde cruzará os seus braços com os meus braços. Troquei umas breves palavras com ela, há pouco, senti-a agitada, sensível, enfim, nada que uma pisciana não deva ser, fazendo as últimas compras para responder aos meus pedidos extravagantes de atum e polvo em lata e outras conservas, gel de lavagem para peles acneicas, sensodyne para os dentes, liquifilm para os olhos, chocolates portugueses para amizades indonésias, vinho (tinto e branco), filmes e livros, um sem-fim, tadinha da Mami... , e revi-a assim:
___________________________
Raramente dou pelo pôr-do-sol aqui. Aconteceu-me prestar maior atenção hoje, porque estava mais livre e porque há uns dias, falando das várias possibilidades do verbo "pôr" em aula, mencionei o "Pôr-do-Sol" - e fiquei angustiada (terão eles notado?! a minha angústia? a minha ignorância?). Angustiada, porque me apercebi de que eu não sabia o que era um pôr-do-sol na Indonésia. É verdade que aqui o crepúsculo dura um estalar de dedos. O crepúsculo equatorial... Rápido. E entre arranha-céus, então, rapidíssimo! Mas hoje estive à coca.
Vejam o que eu vi da minha varanda:
____________________________
A mesma luz alaranjada reflectida na curva de um canal - que não é mais do que um esgoto aberto. Apesar de os holandeses terem premeditado os canais de Jacarta de forma bem diferente - como os de uma Amesterdão ou de uma Veneza... Mas que aqui não são mais do que lixo líquido. Ao lado, um cemitério, que eu quase todos os dias atravesso de ojek (os ojek invadem as ruelas de terra batida do cemitério como atalhos para fugir do trânsito das avenidas principais). [Na outra noite, vindo da estação Tebet para casa de ojek, como habitual, atravessámos aquelas passagens estreitas e como que proibidas... O rapaz-ojek gritava: "hantu!!", o que significa, em português, "fantasmas!!". Os indonésios são muito supersticiosos. Mas fazem tudo para escapar ao tráfego.]
________________________Eis o pôr-do sol da minha varanda em Jacarta.
Hoje apreciei-o. E achei-o estranhamente belo.
Etiquetas:
diário/ daily,
Jacarta,
os Indonésios/ Indonesian People
pusing
____________________
No outro dia, passeava por uma livraria. Comprei um livro que estava em promoção. Por coincidência o livro chama-se Culture Troubles e é uma espécie de estudo comparativo do Estado e da representação política em três países tão diferentes como a França, a Suécia e a Nigéria...! O que primeiro me chamou a atenção foram, naturalmente, as letras capitais anunciando a "Promosi!"; depois o título do livro - já que eu tenho andado "pusing" (o bahasa para "com dores de cabeça" - não é tão mais simples?! "saya pusing" e está tudo dito - "estou com dores de cabeça"!) por causa de muitas coisas, uma delas o esforço de compreender; finalmente, decidi-me quando li na contracapa que o ensaio recaía sobre as diferenças culturais entre três países e a forma como isso afectava a sua política - e eis que um dos países contemplados é a Nigéria! E eis-me a comprar um livro sobre a Nigéria na Indonésia...
A minha sala está com tantos papéis e eu estou com tantos papéis na minha cabeça, manuais sobre manuais, fichas sobre fichas, projectos que são como campos imensos de arroz onde me sinto perdida - sem saber como me mover por eles e como fazer para cultivar o raio do arroz - procrastinações (ó sim, tornei-me fã deste substantivo que me traz à mente a imagem de um escorpião ou de um caranguejo nem sei porquê... é uma palavra com pinças - tenho cá para mim), eu sei lá. Pusing pusing.
Hoje apanhei uma molha a vir de ojek para casa. Chovia tanto! O rapaz-ojek, preocupado, travava levemente entre as poças, olhava de soslaio para as minhas calças a conferir se não estavam muito molhadas, perguntava se eu não queria recolher-me sob a sua capa impermeável amarela... E eu molhava-me, tive de fechar os olhos - porque começavam a arder-me - e cheguei, de mansinho, a encostar a minha cabeça nas costas amarelas de quem me guiava, deixando-me simplesmente não pensar em nada. Bendito ojek!
Enquanto esperava pelo comboio, na estação da Universidade (1 hora à espera...), chovia chovia, e eu sentada sobre a trave de aço, a olhar para as poças e para a linha férrea molhada, cheia de pedras molhadas. Ao meu lado, estava uma menina como muitas meninas indonésias. Vestida com umas calças justas, umas sabrinas nos pés, uma camisola bonita, de tecido leve (não sei qual) e larga; a carinha redonda, os olhos grandes e ainda maiores pelas lentes de contacto de cor que usava (aqui está na moda usar dessas lentes - então, rapazes e raparigas, andam por aí com olhos de leopardo, com olhos amarelos, com olhos violeta, com olhos azul turquesa...), o cabelo preto preto, comprido e liso, apanhado num bem cuidado rabo-de-cavalo e uma franjinha sobre a testa, cuidadosamente puxada para o lado direito, culminando numa leve e sensual ondulação para cima, para o ar, para o céu, como uma antena. Entrou no mesmo comboio que eu, e enquanto esperava não tirou os dedos rápidos do seu telemóvel quadradão, largo e cheio de botões e coisas, entre outras internet e máquina fotográfica. Reparei que escrevia no facebook.
Poucos segundos antes de apanhar o ojek, percorria o cais da estação - porque tinha saído do comboio mesmo lá muito atrás e tinha de atravessar toda a plataforma até à saída. Olhando para a plataforma oposta, vi uma massa anónima de gente, esperando sobre os bancos mal ajeitados. Eram 7 da noite e a esta hora as pessoas que trabalham em Jacarta estão a regressar para as suas casas nos subúrbios, lá para os lados da minha Universidade. Pequenino e encolhido, entre a gente imperturbável, vi um menino, talvez de 11 ou 12 anos, a varrer a água para fora, para a via férrea, para ganhar umas poucas rupias em troca, como esmola. Muito magro, de cócoras, com perninhas de grilo, uns olhos grandes e vazios e um leve arroxeado sob eles, que presumi fossem olheiras, descalço, entre a água, enxotando-a para o lado e ela a ele regressando de cima, naquela tarefa inglória e indiferente para os que o rodeavam.
E então, de mansinho, nem sei se ele notou ou não, encostei a cabeça nas costas amarelas do ojek, enquanto ele me guiava pelas avenidas inundadas - largando-me na doçura do vento e do vazio.
o que é?
A Vina Novianti.
______________________
A Vina é a minha primeira amiga em Jacarta. Gosto muito dela, ainda que ela tenha muitos macaquinhos na cabeça, muitos fantasmas! Gosto dela porque acredito nela. E nós conversamos muito. Através dela, vou conhecendo melhor a Indonésia. No entanto, é sempre uma visão subjectiva - porque é a visão dela. E creio que ela é por vezes injusta com o seu próprio povo e país.
Mas através da Vina fui abrindo os olhos para uma peculiaridade dos indonésios. No início, eu não sabia nomeá-la, apercebia-me dela, por vezes incomodava-me, mas não sabia o que era. A minha amiga trouxe-me as palavras.
No geral, eu não consigo ver para além da cara destas pessoas. Como explicar? São pouco claros. Falta uma espécie de densidade, tridimensionalidade, de profundidade - que nos faz conhecer as pessoas.
Excluindo a Vina, ainda não consegui "conhecer" ninguém aqui. Ao contrários dos nigerianos - que de tão abertos até se tornavam, por vezes, agressivos, rudes - os indonésios são sempre dóceis e têm sempre um sorriso no rosto. Riem muito, mesmo que nem eu nem eles percebamos do que se estão a rir... É uma espécie de defesa e de máscara. E marca uma distância muito grande entre mim e eles, que me angustia.
Depois de uma conversa um pouco tortuosa com a Vina, passeando-nos pelas largas avenidas de Tugu (ihihih, isto é uma piada que só nós entendemos), comecei a pensar nas consequências de mais de 30 anos de ditadura, com o presidente Suharto. Mas achei que não podia ser só disso. Depois pensei na pobreza. Mas a Nigéria também é muito pobre e os meus alunos interrogavam-me constantemente e enquanto não percebiam algo insistiam até perceber ou quase perceber. E criticavam. Se achavam que eu não estava a explicar bem alguma coisa, diziam, e criticavam. E eu melhorava e explicava melhor. Por isso, achei que não podia ser só disso também. Pensei ainda na religião. 80% ou mais dos indonésios são muçulmanos. [um aparte - nunca vi ninguém que desse tanto a mendigos, por exemplo; às vezes, enquanto espero o comboio, vejo meninas de universidade, tão novinhas, a dar esmola a cada mendigo que passa... - o que é a religião? não é show-off?] Mas não consegui encontrar nesse facto uma justificação satisfatória para a minha grande questão!
Então acho que vem daquilo que eu sempre considerei nos asiáticos, que é a polidez. São inerentemente respeitosos e delicados na relação com o outro, principalmente se esse outro for um forasteiro.
E é paradoxal como essa delicadeza me desconforta, porque não há transparência - é só cerimónia.
E com a Vina percebi que isso cria todo um submundo que vai alimentando as pessoas e compensando a sua contenção - como as telenovelas. Por não falarem aberta e directamente sobre aquilo que pensam, canalizam todas as suas opiniões caladas num subterrâneo de intrigas, historietas, por vezes mesquinhas, e invenções. A clara origem do drama.
Mas através da Vina fui abrindo os olhos para uma peculiaridade dos indonésios. No início, eu não sabia nomeá-la, apercebia-me dela, por vezes incomodava-me, mas não sabia o que era. A minha amiga trouxe-me as palavras.
No geral, eu não consigo ver para além da cara destas pessoas. Como explicar? São pouco claros. Falta uma espécie de densidade, tridimensionalidade, de profundidade - que nos faz conhecer as pessoas.
Excluindo a Vina, ainda não consegui "conhecer" ninguém aqui. Ao contrários dos nigerianos - que de tão abertos até se tornavam, por vezes, agressivos, rudes - os indonésios são sempre dóceis e têm sempre um sorriso no rosto. Riem muito, mesmo que nem eu nem eles percebamos do que se estão a rir... É uma espécie de defesa e de máscara. E marca uma distância muito grande entre mim e eles, que me angustia.
Depois de uma conversa um pouco tortuosa com a Vina, passeando-nos pelas largas avenidas de Tugu (ihihih, isto é uma piada que só nós entendemos), comecei a pensar nas consequências de mais de 30 anos de ditadura, com o presidente Suharto. Mas achei que não podia ser só disso. Depois pensei na pobreza. Mas a Nigéria também é muito pobre e os meus alunos interrogavam-me constantemente e enquanto não percebiam algo insistiam até perceber ou quase perceber. E criticavam. Se achavam que eu não estava a explicar bem alguma coisa, diziam, e criticavam. E eu melhorava e explicava melhor. Por isso, achei que não podia ser só disso também. Pensei ainda na religião. 80% ou mais dos indonésios são muçulmanos. [um aparte - nunca vi ninguém que desse tanto a mendigos, por exemplo; às vezes, enquanto espero o comboio, vejo meninas de universidade, tão novinhas, a dar esmola a cada mendigo que passa... - o que é a religião? não é show-off?] Mas não consegui encontrar nesse facto uma justificação satisfatória para a minha grande questão!
Então acho que vem daquilo que eu sempre considerei nos asiáticos, que é a polidez. São inerentemente respeitosos e delicados na relação com o outro, principalmente se esse outro for um forasteiro.
E é paradoxal como essa delicadeza me desconforta, porque não há transparência - é só cerimónia.
E com a Vina percebi que isso cria todo um submundo que vai alimentando as pessoas e compensando a sua contenção - como as telenovelas. Por não falarem aberta e directamente sobre aquilo que pensam, canalizam todas as suas opiniões caladas num subterrâneo de intrigas, historietas, por vezes mesquinhas, e invenções. A clara origem do drama.
dando voltas no estádio
.
.
Hoje passaram-me várias coisas pela cabeça.
Fui correr, ao fim da tarde, num estádio meio abandonado que fica a poucos passos da minha casa. De vez em quando vou para lá, principalmente quando já caiu a noite. Nunca acendem os holofotes e tu respiras a escuridão pesada de uma noite tropical.
Primeiro caminho, durante uns 20 minutos, depois corro. Às vezes assusto gatos, morcegos ou ratos que devem morar por ali, não sei. No início, eu também me assustava, mas comecei a perceber que eu os assustava muito mais a eles e que tinha uma notória e confortável vantagem sobre os bichos. Acho que não me vão atacar e pode ser que com o tempo se habituem à minha presença veloz entre eles.
Relaxa-me ir para ali e penso devagar sobre as coisas.
Melhor mesmo é quando corro e me ultrapasso a mim mesma e esqueço-me de que existo - e aquilo que corre ali é uma pedra fisgada no ar com muita força. Era o que me acontecia quando nadava. Depois de um esforço horrendo, passados 50 minutos de sofrimento, entrava numa espécie de transe e parecia que não eram os meus braços quem empurrava as águas e o cloro ardente...
Pensava sobre isso, depois de ter voltado a mim, depois da correria, enquanto esticava os braços para a frente e para trás e batia com os calcanhares nas nádegas, - e sonhava. Sonhava que, um dia, os meus alunos viriam a sentir isso nas minhas aulas. Depois do esforço, da concentração e do estudo - que, um dia, o português patinaria na língua deles como saliva.
Tentei lembrar-me se alguma vez tinha sentido isto numa aula, esta sensação de ausência de mim, de extremo conforto, de liberdade e de relaxe. Não. Sempre fui uma stressada nas aulas. Cada vez que queria falar o coração começava a bater-me com tanta força que pensava que me ia romper o peito e saltar e voar como um passarinho doméstico que levou um tiro, partindo os vidros das janelas da sala de aula. A maior parte das vezes não falava. Nunca fui muito participativa nas aulas, apesar de ter coisas para dizer...
E agora estou a pensar numa receita - para que os alunos possam sentir, aprendendo e falando uma língua estrangeira, aquilo que sentimos quando fazemos desporto e nos esquecemos de que estamos cansados e a fazer esforço e de repente já nem contamos as voltas que damos e já só vamos em frente e até parece que podíamos continuar horas e horas e horas assim...
Hoje foi a primeira vez que isto me aconteceu a correr. Comecei há duas semanas e tem sido sempre uma sofredeira dos diabos. Mas hoje aconteceu o milagre!
No fundo, é disto que o Budismo fala quando fala na renúncia do ego. Olha só o que conseguimos fazer quando nos esquecemos de nós próprios e das tretinhas dos nossos problemas de meia tigela... No entanto, só se chega a um estado desses com disciplina, persistência e esforço.
O desporto é muito importante! Devia ser disciplina obrigatória não só no ensino secundário, mas ainda na universidade!
Entretanto, pensei noutras coisas. Pensei que quando comecei a pensar, espantada comigo mesma, a tentar contar as voltas que já teria dado e achando que já eram mais do que o habitual com certeza - senti-me repentinamente exausta, à procura do traço branco, marcado a giz sobre a terra batida da pista, que marcaria o fim.
E depois pensei que se não houvesse traço branco e não me lembrasse que havia um fim, continuaria e não me sentiria tão exausta. E, claro, vieram-me à mente as mais variadas e banais experiências já vividas: quase fazer xixi nas cuecas quando estava mesmo a chegar à casa-de-banho; desistir, sem fôlego, quando começava a vislumbrar a parede da pista na piscina, já na última volta do sprint; esperar horas por uma consulta no dentista e ficar impaciente e dirigir-me à saída e dizerem-me que vou ser atendida já a seguir e eu ir embora; sei lá - vocês poderão dar-me outros exemplos, vossos, porque todos nós sentimos o mesmo. Perto do fim, perdemos as forças e queremos quase desistir, depois de horas, ou meses ou mesmo anos de espera, esforço ou persistência.
Por isso é que as pessoas gostam de ver túneis de luz quando morrem, ou gostam da ideia de os ver - pronto. Se vissem qualquer coisa como uma meta, uma bandeirinha, um traço a giz no chão - ainda que luminosos, como o mítico túnel, o coração começava-lhes a bater demasiado depressa porque sentiam que estavam a chegar ao fim de uma coisa que nem sabiam bem o que tinha sido e que a caminhada tinha sido tão longa e que estavam tão cansados e com vontade de ir à casa-de-banho e "onde é que há uma casa-de-banho?", etc. Mas se vêem um túnel... ah... isso é outra coisa: há uma continuidade que não os deixa parar. Move-os a curiosidade? Move-os o esquecimento, talvez.
E se nós paramos, coçamos a cabeça e ficamos deprimidos, muito cansados, e sentamo-nos numa rocha a pensar como o outro do Rodin que sempre achei um bocado ridículo.
Então pensei ainda uma outra vez! Pensei que quando eu for escritora, os meus livros nunca hão-de ter um fim, porque eu não quero que os meus leitores se sintam cansados e desencorajados, quero-os sempre super-humanos!
Fui correr, ao fim da tarde, num estádio meio abandonado que fica a poucos passos da minha casa. De vez em quando vou para lá, principalmente quando já caiu a noite. Nunca acendem os holofotes e tu respiras a escuridão pesada de uma noite tropical.
Primeiro caminho, durante uns 20 minutos, depois corro. Às vezes assusto gatos, morcegos ou ratos que devem morar por ali, não sei. No início, eu também me assustava, mas comecei a perceber que eu os assustava muito mais a eles e que tinha uma notória e confortável vantagem sobre os bichos. Acho que não me vão atacar e pode ser que com o tempo se habituem à minha presença veloz entre eles.
Relaxa-me ir para ali e penso devagar sobre as coisas.
Melhor mesmo é quando corro e me ultrapasso a mim mesma e esqueço-me de que existo - e aquilo que corre ali é uma pedra fisgada no ar com muita força. Era o que me acontecia quando nadava. Depois de um esforço horrendo, passados 50 minutos de sofrimento, entrava numa espécie de transe e parecia que não eram os meus braços quem empurrava as águas e o cloro ardente...
Pensava sobre isso, depois de ter voltado a mim, depois da correria, enquanto esticava os braços para a frente e para trás e batia com os calcanhares nas nádegas, - e sonhava. Sonhava que, um dia, os meus alunos viriam a sentir isso nas minhas aulas. Depois do esforço, da concentração e do estudo - que, um dia, o português patinaria na língua deles como saliva.
Tentei lembrar-me se alguma vez tinha sentido isto numa aula, esta sensação de ausência de mim, de extremo conforto, de liberdade e de relaxe. Não. Sempre fui uma stressada nas aulas. Cada vez que queria falar o coração começava a bater-me com tanta força que pensava que me ia romper o peito e saltar e voar como um passarinho doméstico que levou um tiro, partindo os vidros das janelas da sala de aula. A maior parte das vezes não falava. Nunca fui muito participativa nas aulas, apesar de ter coisas para dizer...
E agora estou a pensar numa receita - para que os alunos possam sentir, aprendendo e falando uma língua estrangeira, aquilo que sentimos quando fazemos desporto e nos esquecemos de que estamos cansados e a fazer esforço e de repente já nem contamos as voltas que damos e já só vamos em frente e até parece que podíamos continuar horas e horas e horas assim...
Hoje foi a primeira vez que isto me aconteceu a correr. Comecei há duas semanas e tem sido sempre uma sofredeira dos diabos. Mas hoje aconteceu o milagre!
No fundo, é disto que o Budismo fala quando fala na renúncia do ego. Olha só o que conseguimos fazer quando nos esquecemos de nós próprios e das tretinhas dos nossos problemas de meia tigela... No entanto, só se chega a um estado desses com disciplina, persistência e esforço.
O desporto é muito importante! Devia ser disciplina obrigatória não só no ensino secundário, mas ainda na universidade!
Entretanto, pensei noutras coisas. Pensei que quando comecei a pensar, espantada comigo mesma, a tentar contar as voltas que já teria dado e achando que já eram mais do que o habitual com certeza - senti-me repentinamente exausta, à procura do traço branco, marcado a giz sobre a terra batida da pista, que marcaria o fim.
E depois pensei que se não houvesse traço branco e não me lembrasse que havia um fim, continuaria e não me sentiria tão exausta. E, claro, vieram-me à mente as mais variadas e banais experiências já vividas: quase fazer xixi nas cuecas quando estava mesmo a chegar à casa-de-banho; desistir, sem fôlego, quando começava a vislumbrar a parede da pista na piscina, já na última volta do sprint; esperar horas por uma consulta no dentista e ficar impaciente e dirigir-me à saída e dizerem-me que vou ser atendida já a seguir e eu ir embora; sei lá - vocês poderão dar-me outros exemplos, vossos, porque todos nós sentimos o mesmo. Perto do fim, perdemos as forças e queremos quase desistir, depois de horas, ou meses ou mesmo anos de espera, esforço ou persistência.
Por isso é que as pessoas gostam de ver túneis de luz quando morrem, ou gostam da ideia de os ver - pronto. Se vissem qualquer coisa como uma meta, uma bandeirinha, um traço a giz no chão - ainda que luminosos, como o mítico túnel, o coração começava-lhes a bater demasiado depressa porque sentiam que estavam a chegar ao fim de uma coisa que nem sabiam bem o que tinha sido e que a caminhada tinha sido tão longa e que estavam tão cansados e com vontade de ir à casa-de-banho e "onde é que há uma casa-de-banho?", etc. Mas se vêem um túnel... ah... isso é outra coisa: há uma continuidade que não os deixa parar. Move-os a curiosidade? Move-os o esquecimento, talvez.
E se nós paramos, coçamos a cabeça e ficamos deprimidos, muito cansados, e sentamo-nos numa rocha a pensar como o outro do Rodin que sempre achei um bocado ridículo.
Então pensei ainda uma outra vez! Pensei que quando eu for escritora, os meus livros nunca hão-de ter um fim, porque eu não quero que os meus leitores se sintam cansados e desencorajados, quero-os sempre super-humanos!
ojek
Aqui a melhor forma de circular é de "ojek". Apanhamos a motita, pagamos 10.000 rupias (cerca de 80 cêntimos) e lá vamos, de capacete à banda (os capacetes ficam-me sempre demasiado largos e não os posso ajustar, porque a mola está sempre estragada ... Então vou assim, disfarçada de protegida, às vezes a mão sobe ao capacete.... mas... há sempre esta imensa sensação.... de...).
Vemos famílias completas sobre as motos. Desta vez, apanhei um casal com os dois filhos; mas há vezes em que vão cinco ou seis sobre o frágil dorso mecânico.
Eu vou para a estação de comboio de "ojek". Para a estação de "Tebet", a poucos quilómetros de minha casa - mas por onde não passa o autocarro. De Tebet vou directamente para a estação da Universitas Indonesia, onde ensino.
Sento-me e vou - e eles já me conhecem, e perguntam "Tebet?" - e quando regresso perguntam "Taman Rasuna enam?" , que significa "Taman Rasuna, torre seis?".
E cá está o habitual, como todos temos, o rotineiro...
Mas a vocês a minha rotina parece-vos diferente, não é? Mas é tão rotina quanto a vossa...
Etiquetas:
diário/ daily,
Jacarta,
os Indonésios/ Indonesian People
Subscrever:
Mensagens (Atom)
