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Amir Hamzah
AMIR HAMZAH (escritor e poeta indonésio; 1911-1946).
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PADAMU JUA
Habis kikis
Segera cintaku hilang terbang
Pulang kembali aku padamu
Seperti dahulu
Kaulah kandil kemerlap
Pelita jendela di malam gelap
Melambai pulang perlahan
Sabar, setia selalu
Satu kekasihku
Aku manusia
Rindu rasa
Rindu rupa
Di mana engkau
Rupa tiada
Suara sayup
Hanya kata merangkai hati
Engkau cemburu
Engkau ganas
Mangsa aku dalam cakarmu
Bertukar tangkap dengan lepas
Nanar aku, gila sasar
Sayang berulang padamu jua
Engkau pelik menarik ingin
Serupa dara dibalik tirai
Kasihmu sunyi
Menunggu seorang diri
Lalu waktu – bukan giliranku
Mati hari – bukan kawanku.
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SÓ PARA TI
Completamente perdido
Todo o meu amor se evaporou
E de novo regresso para os teus braços
Como sempre
Tu és uma candeia que brilha
Uma luz à janela, na noite escura
Que me acena docemente o regresso a casa
Paciente, sempre fiel
Minha única amada:
Eu sou humano
Desejo perder-me nos sentidos
Desejo iludir-me com as formas
Mas onde estás tu
Não há forma
O som é vago
Só as palavras guiam o coração
Tu és ciumenta
Tu és feroz
Sou uma preia nas tuas garras
Ora preso ora solto
Atordoado, desesperado
Pobre de mim, só para ti volto sempre
Mas tu és difícil de desejar
Como uma donzela por detrás de uma cortina
O teu amor é calmo
Espero, sozinho
O tempo passa – mas não perco a minha vez
O dia morre – mas não a minha companheira
Chairil Anwar
CHAIRIL ANWAR (poeta e escritor indonésio; 1922-1949).
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AKU
Kalau sampai waktuku
'Ku mau tak seorang kan merayu
Tidak juga kau
AKU
Kalau sampai waktuku
'Ku mau tak seorang kan merayu
Tidak juga kau
Tak perlu sedu sedan itu
Aku ini binatang jalang
Dari kumpulannya terbuang
Biar peluru menembus kulitku
Aku tetap meradang menerjang
Luka dan bisa kubawa berlari
Berlari
Hingga hilang pedih peri
Dan aku akan lebih tidak perduli
Aku mau hidup seribu tahun lagi
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EU
Quando chegar a minha hora
Não quero que ninguém me cative
Nem mesmo tu
Não preciso desses soluços
Eu sou este animal selvagem
Do seu grupo excluído
Deixa que a bala irrompa pela minha pele
Mesmo assim escoicearei enfurecido
A ferida e o veneno carregarei, correndo
Correndo
Até que desapareça a dor
E não me vou importar mais
Quero viver ainda outros mil anos
mais Pramoedya

Acabei de ler, há uns dias, o primeiro romance do quarteto "The Buru Quartet" do grande romancista indonésio Pramoedya Ananta Toer. Chama-se This Earth of Mankind e Pramoedya contou-o, oralmente, aos seus colegas prisioneiros na ilha de Buru, no arquipélago das Molucas, na Indonésia - porque lhe era negado o uso de papel e caneta na prisão. Durante o regime de Suharto na Indonésia, Pramoedya foi prisioneiro político durante 14 anos nesta ilha pelo seu suposto "comunismo".
Esta tetralogia narra a história de uma revolução: a revolução pela liberdade do ser humano (mais concretamente, a revolução contra qualquer tipo de colonialismo).
Como me aconteceu com os anteriores livros que li de Pramoedya, devorei. É um verdadeiro contador de histórias e imagino como será delicioso lê-lo no original indonésio... Há de udo: há uma infância que não é vivida - orfandade espiritual e maturidade precoce, à Dickens (a criança independente) e à Camilo Castelo Branco (a criança hipersensível votada à tragédia); há inquietude existencialista, à Dostoievsky; há amor proibido por espartilhos sociais, à Jane Austen; há traição, mudança de carácter, loucura e bordéis, um pouco à Hitchcock (a desconfiança e a inquietação) um pouco à Fritz Lang (a psicanálise); há denúncia social, à Brecht (muito fria e directa, sem o humor de um Eça de Queirós); há solidariedade comovente, à Capra; há descrição de costumes e tradições, à Alexandra David-Néel; há erotismo discreto (como quando calam os "fuck" e os "fucking" e os "mother fucker" nos filmes americanos que passam nos canais indonésios, pois há censura), onde a omissão torna a cena profunda e espantosa - inquietante, à Selma Lagerloff e também à Kafka; há espontaneidade, variedade na narração, objectividade, diarística, à voz-off de filme noir; há a suprema força feminina (a mulher inteligente, lutadora e instintiva), à Agustina Bessa-Luís.
Estou muito feliz por ter descoberto este meu novo Autor de cabeceira.
Esta tetralogia narra a história de uma revolução: a revolução pela liberdade do ser humano (mais concretamente, a revolução contra qualquer tipo de colonialismo).
Como me aconteceu com os anteriores livros que li de Pramoedya, devorei. É um verdadeiro contador de histórias e imagino como será delicioso lê-lo no original indonésio... Há de udo: há uma infância que não é vivida - orfandade espiritual e maturidade precoce, à Dickens (a criança independente) e à Camilo Castelo Branco (a criança hipersensível votada à tragédia); há inquietude existencialista, à Dostoievsky; há amor proibido por espartilhos sociais, à Jane Austen; há traição, mudança de carácter, loucura e bordéis, um pouco à Hitchcock (a desconfiança e a inquietação) um pouco à Fritz Lang (a psicanálise); há denúncia social, à Brecht (muito fria e directa, sem o humor de um Eça de Queirós); há solidariedade comovente, à Capra; há descrição de costumes e tradições, à Alexandra David-Néel; há erotismo discreto (como quando calam os "fuck" e os "fucking" e os "mother fucker" nos filmes americanos que passam nos canais indonésios, pois há censura), onde a omissão torna a cena profunda e espantosa - inquietante, à Selma Lagerloff e também à Kafka; há espontaneidade, variedade na narração, objectividade, diarística, à voz-off de filme noir; há a suprema força feminina (a mulher inteligente, lutadora e instintiva), à Agustina Bessa-Luís.
Estou muito feliz por ter descoberto este meu novo Autor de cabeceira.
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literatura indonésia,
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Pramoedya Ananta Toer
Pramoedya

Sentia-me cansada e apetecia-me dormir. Mas tive uma noite de insónia.
Não sei a que horas adormeci, mas seria tarde, e eu estava inquieta. Como nos tempos da faculdade em que estudava com muita força, especialmente as disciplinas de língua e linguística que sempre me fascinaram, e dormia como que acordada vendo passar em powerpoint gigantes símbolos do alfabeto fonético sobre a minha semi-consciência.
A dada altura lembrei-me dos meus tempos de Lavaur, e como me era sossegada a vida, e perguntei-me porquê. A conclusão foi rápida e clara: não tinha internet em casa, vivia no campo e tinha poucas responsabilidades.
Mas passei a tarde a ler um romance que iniciara durante a insónia. A Rapariga de Java (traduzido para português e publlicado pela Quetzal) do grande autor indonésio Pramoedya Toer, escritor javanês que morreu em 2006, com 81 anos. Esta tinha sido uma prendinha de uma pessoa que é no meu coração, a Cristina, e só ontem encontrei a disposição ideal para o experimentar ler (não haja dúvidas de que as insónias nos deixam num tal estado de desalento e de dúvida perante a vida que só mesmo um bom livro nos pode deles salvar....).
Há muito tempo que não sentia esta dependência por um livro, aquela que não nos deixa sossegar enquanto não o acabamos.
Uma história melodramática e com um fim que não me agradara, enquanto não investiguei algo da obra pela net - descobrindo que este era um romance autobiográfico.
Mas admito que no início senti que estava a ler daqueles romances best-sellers sobre meninas de burka, acabadas de casar com um velho feio e de penetrar no seu harém, que têm uma vida infeliz algures no médio oriente. Ainda que o livro não tenha nada a ver com isso. Foi só uma sensação. E as sensações são coisas maravilhosas para a literatura e para a poesia e para a construção de metáforas e de uma sempre fresca sensibilidade - mas podem deixar-nos a léguas da realidade.
É um romance profundo, incrivelmente feminino (aliás, acho que o Pramoedya era um feminista!), com as inevitáveis mensagens ideológicas como pano de fundo (nacionalismo indonésio; feminismo; vida do campo - pura e honesta - vs vida da cidade - decadente e alienatória; discrepância social e económica; almas servis dos pobres que só pensam em ter dinheiro para comer e não encontram inteligência para nada mais; a cultura fortíssima de hierarquias que reina em Java, etc, etc). A dada altura - e foi a melhor! - senti-me como em Kafka ou como em Selma Lagerlof - ai, esta adição deliciosa de surrealismo, improbabilidade, perversidade e lirismo = a presença inquietante de personagens e, claro, depois = o nascimento de situações que ao mesmo tempo que belas, porque oníricas, nos provocam um certo mal-estar e indiciam a malícia do mundo e das pessoas... como a figura do bardo com a sua pandeireta (que me lembrou o pobre bardo do Astérix que acabava sempre amordaçado à árvore enquanto a comunidade se banqueteava!), ou do ancião da vila... E também os momentos de incrível ternura cheia de humor, como a do diálogo entre a rapariga de Java e o cocheiro, me lembraram aqueles dois autores. E também neste romance as personagens não têm nomes, mas "títulos", o que nos faz falar delas como numa história (o que é, de facto...): "conheci uma rapariga... e havia um velho que... e o cocheiro...".
Este anonimato faz-me sentir confortável enquanto leitora, inquieta-me ao mesmo tempo e faz-me sentir mais nova, também.
Por isso, quando eu for escritora, acho que não vou dar nomes às minhas personagens. Há pintores que fazem o mesmo - e eu gosto deles.
E agora vou dormir, sem fonética, por favor.
Não sei a que horas adormeci, mas seria tarde, e eu estava inquieta. Como nos tempos da faculdade em que estudava com muita força, especialmente as disciplinas de língua e linguística que sempre me fascinaram, e dormia como que acordada vendo passar em powerpoint gigantes símbolos do alfabeto fonético sobre a minha semi-consciência.
A dada altura lembrei-me dos meus tempos de Lavaur, e como me era sossegada a vida, e perguntei-me porquê. A conclusão foi rápida e clara: não tinha internet em casa, vivia no campo e tinha poucas responsabilidades.
Mas passei a tarde a ler um romance que iniciara durante a insónia. A Rapariga de Java (traduzido para português e publlicado pela Quetzal) do grande autor indonésio Pramoedya Toer, escritor javanês que morreu em 2006, com 81 anos. Esta tinha sido uma prendinha de uma pessoa que é no meu coração, a Cristina, e só ontem encontrei a disposição ideal para o experimentar ler (não haja dúvidas de que as insónias nos deixam num tal estado de desalento e de dúvida perante a vida que só mesmo um bom livro nos pode deles salvar....).
Há muito tempo que não sentia esta dependência por um livro, aquela que não nos deixa sossegar enquanto não o acabamos.
Uma história melodramática e com um fim que não me agradara, enquanto não investiguei algo da obra pela net - descobrindo que este era um romance autobiográfico.
Mas admito que no início senti que estava a ler daqueles romances best-sellers sobre meninas de burka, acabadas de casar com um velho feio e de penetrar no seu harém, que têm uma vida infeliz algures no médio oriente. Ainda que o livro não tenha nada a ver com isso. Foi só uma sensação. E as sensações são coisas maravilhosas para a literatura e para a poesia e para a construção de metáforas e de uma sempre fresca sensibilidade - mas podem deixar-nos a léguas da realidade.
É um romance profundo, incrivelmente feminino (aliás, acho que o Pramoedya era um feminista!), com as inevitáveis mensagens ideológicas como pano de fundo (nacionalismo indonésio; feminismo; vida do campo - pura e honesta - vs vida da cidade - decadente e alienatória; discrepância social e económica; almas servis dos pobres que só pensam em ter dinheiro para comer e não encontram inteligência para nada mais; a cultura fortíssima de hierarquias que reina em Java, etc, etc). A dada altura - e foi a melhor! - senti-me como em Kafka ou como em Selma Lagerlof - ai, esta adição deliciosa de surrealismo, improbabilidade, perversidade e lirismo = a presença inquietante de personagens e, claro, depois = o nascimento de situações que ao mesmo tempo que belas, porque oníricas, nos provocam um certo mal-estar e indiciam a malícia do mundo e das pessoas... como a figura do bardo com a sua pandeireta (que me lembrou o pobre bardo do Astérix que acabava sempre amordaçado à árvore enquanto a comunidade se banqueteava!), ou do ancião da vila... E também os momentos de incrível ternura cheia de humor, como a do diálogo entre a rapariga de Java e o cocheiro, me lembraram aqueles dois autores. E também neste romance as personagens não têm nomes, mas "títulos", o que nos faz falar delas como numa história (o que é, de facto...): "conheci uma rapariga... e havia um velho que... e o cocheiro...".
Este anonimato faz-me sentir confortável enquanto leitora, inquieta-me ao mesmo tempo e faz-me sentir mais nova, também.
Por isso, quando eu for escritora, acho que não vou dar nomes às minhas personagens. Há pintores que fazem o mesmo - e eu gosto deles.
E agora vou dormir, sem fonética, por favor.
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