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cair e ser triturado ou morrer eletrocutado - qual o melhor?

Ainda que as estações de comboio ostentem estes cartazes deveras expressivos, alertando os passageiros para os perigos de ir no teto do veículo...



... eles não se impressionam e continuam a subir para a parte descapotável e mais espaçosa do comboio.


Isto acontece principalmente nas horas de ponta, quando os comboios vão apinhados de gente. Há acidentes quase diariamente, muitos mortais.






Já me aconteceu ver jovens a dormir lá em cima, a ler ou a tocar guitarra. Já me aconteceu ver gente a caminhar lá em cima, com o comboio em andamento. Já me aconteceu ver miúdos pequenos a rir e a saltar lá em cima. Felizmente, nunca me aconteceu assistir a saltos mortais. Por enquanto.

a casa do canal

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No início, perdia-me por Jacarta. Fazia o impossível – caminhava a pé pelas largas e longas avenidas: tropeçava nos buracos dos passeios, tossia os vapores das motas, olhava o mapa na esperança de estar perto do lugar que me tinha proposto como meta para esse dia – um parque, um centro comercial, um museu, uma igreja – e continuava por ali fora, para pasmo dos locais com que me cruzava. Já me deixei disso há algum tempo. É muito cansativo, traz-me novos pontos negros à pele e inquieta-me. Ora, eu caminho para relaxar, não para me enervar. Aconteceu-me explorar todas as linhas do autocarro Transjakarta. Um autocarro sofisticado, com ar condicionado e a sua via particular na estrada, o que o impede de ficar encalacrado no tráfego.



Ancol, Gambir, Blok M, Ragunan, Kota – you name it. Cheguei a todo o lado de Transjakarta. Às vezes, esperava horas até conseguir entrar num autocarro, devido ao excesso de gente que se acotovelava na fila desordenada e larga; pela primeira vez senti o que era ser levada pela corrente num mar de gente. Lembro-me de uma noite, na paragem de Tosari, em que me sentindo arrastada por uma turba impaciente e suada e temendo cair no intervalo que há entre a plataforma e a entrada do autocarro gritei “Pelan-pelan! Hati-hati!” (“Devagar! Cuidado!”), fazendo as pessoas abrandar e desatar a rir às gargalhadas. Eu também me ri, fui a rir até casa e ainda agora me rio sozinha quando me lembro. Mas é verdade que nessa altura tinha mais sentido de humor e que agora tenho muito pouco. Agora acontece-me bufar, resmungar entre dentes e sentir que as pessoas não são pessoas mas obstáculos que me impedem de viver como eu quero. Notoriamente, eu ando errada.

Caminhando pelas avenidas veem-se coisas interessantes. Hoje saí de manhã para comprar umas prendas de Natal e, no caminho entre a paragem de Dukuh Atas e o Plaza Indonesia,  passo na parte de cima de um viaduto. Olhando para o lado, reparei num estendal de roupa, entre o canal cheio de lixo e a estrada, naquele cantinho sob a ponte. Debruçando-me um pouco e olhando mais para dentro, pude ver uma casinha improvisada de cimento com telhado de colmo. Senti uma paz enorme olhando as roupas esvoaçando entre os fumos da cidade, com um escasso caniçal de bambus por trás; fazendo um zoom, era mesmo possível esquecer a paisagem urbana e fria circundante, e sentir o calor da pacatez no campo.



Puxei da máquina fotográfica e segundos depois surgiu uma velhota. A dona da casa. Uma senhora que mora debaixo da ponte em Jacarta, entre um canal de água suja e uma estrada de asfalto sujo, mas que mantém o terreno à volta da casa varrido e limpo, a roupa lavada e as canas de bambu bem tratadas. Esta gente que veio das aldeias nos campos de Java e de outras ilhas para a grande metrópole em busca de trabalho, e que vive agora entre os excrementos da grande cidade, percorrendo-lhe o corpo áspero sem sapatos.
Pedem esmola,
vendem comida nos seus carrinhos de mão,



vendem jornais balões livros águas brinquedos gelados amendoins nas estradas ao semáforo encarnado,
são taxistas de mota,



 escolhem o lixo das ruas para o separar e ganhar uns trocos em postos de reciclagem,



desentopem os canais em período de chuvas – quando transbordam e provocam inundações devido à acumulação de lixo –,
ajudam a controlar o tráfego;
as crianças alugam guarda-chuvas gigantes quando cai uma enxurrada de chuva inesperada e correm descalças e semi-nuas pela lava fresca e benéfica da água milagreira que lhes trará umas notas quentes de rupias.
O povo que habita as ruas de Jacarta.

a estação de Tebet


... onde apanho todas as manhãs o comboio para a Universitas Indonesia.

o alfarrabista

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Era uma vez dois livros que eu comprei. Não sei o que são, não sei de que são.
Há um alfarrabista no Pasar Festival, um pequeno centro comercial perto da minha casa. Costumo ir lá beber café, petiscar, jantar num restaurante indiano, menos frequentemente almoçar num restaurante japonês, comprar DVDs piratas e - finalmente - perder-me numa loja rectangular e familiar, com cheiro de livros antigos, molhados pela humidade, com revistas variadas, e um silêncio incomum.
Vou lá para relaxar, agarro os livros e respiro-lhes a sujidade e a espera, olho para os títulos, por vezes encontro umas pérolas oportunas.
Comprei estes dois livros. Comecei a ler um deles, que fala sobre o erotismo e o sexo na China, na sua literatura e na sua sociedade. Deu-me para sorrir no comboio, enquanto desvendava um mistério novo. Não passei do segundo parágrafo, porque ambos os parágrafos me enfadaram um pouco - mas hei-de ler o livro até ao fim.
No outro dia perguntavam-me quando se usava a construção de hei-de com infinitivo. Pois eu digo que a usamos quando fazemos uma promessa a nós mesmos pressentindo que nunca a iremos realizar.
Este alfarrabista fica em frente de um pavilhão de bowling e entre um cabeleireiro e um espaço improvisado para massagens em cadeiras ergonómicas.
Enquanto cheirava os livros e acalmava os nervos, olhava de esguelha para um dos empregados, que fixava preços em acervos recém-chegados. Sentado num banco, com um caixote à frente, ia dele retirando sem afectos livro a livro e com uma pistola de etiquetagem ia escolhendo os preços para cada um. Olhava o livro, primeiro de perto, depois afastava-o um pouco como que para ter uma boa visão de conjunto, virava-o para lamber com os olhos a contracapa e tumba - decidia o preço. Abrir o livro? Para quê? E inspirada por ele, assim escolhi os meus novos livros.



a travessia

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Na sexta-feira passada, de manhã, esperava o comboio, como habitual. Voltei a ver aquele rapaz que uns posts atrás encontrei a enxotar água para os carris de comboio, num fim de tarde chuvoso. Ele vive na estação de comboio de Tebet, acho eu. Não sei se terá pais. Vejo-o sempre sozinho, ora de manhã, quando parto, ora ao fim da tarde, quando regresso. Ele estava na plataforma de lá, com aquele olhar vazio, com aquelas olheiras gritantes, sem amor sem nada, sem expressão, sem esperança. Lançou-se num repente para os carris e atravessou a linha, vinha para cá. Esticou uma perna sobre a plataforma, atirou com um saquinho de plástico e com uma vassoura de palha, atirou com o resto do seu corpo débil para o alcatrão já tão quente da manhã. Ficou um pouco sentado, absorto, e sorria, recompunha-se do esforço. Eu olhava-o, entre outros, de um banco de madeira, onde estava sentada, esperando, com o livro perdido entre as mãos. O rapaz sorria. Porquê? Finalmente, moveu-se, ajeitou-se na posição de cócoras, pegou na vassoura amiga e no saquinho de plástico, e começou a varrer o nada, o nada de nada, a passagem de desconhecidos, o vento do Expresso que passa sem parar, as formigas nervosas, os minutos, ele varria a nossa espera, ele varria o atraso do comboio, ele varria um quarto vazio, um restaurante prestes a abrir, uma sala de espera, o corredor de um hospital, a cama de um doente, o rio, o esgoto, ele varria a memória, a consciência, as suas certezas, ele varria-nos a todos dali, directos para os carris, ele varria.
Delicadamente, coloquei 2000 rupias no saquinho de plástico, e olhei-o com olhos de mãe. Enquanto ele varria os pesadelos, sem reparar em mim.

hantu-do-sol

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Cheguei à quarta.
Arranjei uma password tão tramada para entrar na minha conta do google que nunca a consigo escrever bem logo à primeira.
Hoje, foi à quarta.

Antes de mais, penso na minha mãe, que chegará depois de amanhã ao Oriente, onde cruzará os seus braços com os meus braços. Troquei umas breves palavras com ela, há pouco, senti-a agitada, sensível, enfim, nada que uma pisciana não deva ser, fazendo as últimas compras para responder aos meus pedidos extravagantes de atum e polvo em lata e outras conservas, gel de lavagem para peles acneicas, sensodyne para os dentes, liquifilm para os olhos, chocolates portugueses para amizades indonésias, vinho (tinto e branco), filmes e livros, um sem-fim, tadinha da Mami... , e revi-a assim:

Séria, concentrada nas coisas mundanas, neste caso - congeladas - ... mas sempre com um certo estilo.
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Raramente dou pelo pôr-do-sol aqui. Aconteceu-me prestar maior atenção hoje, porque estava mais livre e porque há uns dias, falando das várias possibilidades do verbo "pôr" em aula, mencionei o "Pôr-do-Sol" - e fiquei angustiada (terão eles notado?! a minha angústia? a minha ignorância?). Angustiada, porque me apercebi de que eu não sabia o que era um pôr-do-sol na Indonésia. É verdade que aqui o crepúsculo dura um estalar de dedos. O crepúsculo equatorial... Rápido. E entre arranha-céus, então, rapidíssimo! Mas hoje estive à coca.
Vejam o que eu vi da minha varanda:


Um faixa alaranjada por detrás de uma cúpula moderna e de edifícios de apartamentos variegados.
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A mesma luz alaranjada reflectida num arranha-céus espelhado, perto de uma construção que costumo admirar com deleite da janela: reparem que à esquerda estão dois edifícios que parece que se beijam - o de cá é inclinado, como a Torre de Pisa.
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A mesma luz alaranjada reflectida na curva de um canal - que não é mais do que um esgoto aberto. Apesar de os holandeses terem premeditado os canais de Jacarta de forma bem diferente - como os de uma Amesterdão ou de uma Veneza... Mas que aqui não são mais do que lixo líquido. Ao lado, um cemitério, que eu quase todos os dias atravesso de ojek (os ojek invadem as ruelas de terra batida do cemitério como atalhos para fugir do trânsito das avenidas principais). [Na outra noite, vindo da estação Tebet para casa de ojek, como habitual, atravessámos aquelas passagens estreitas e como que proibidas... O rapaz-ojek gritava: "hantu!!", o que significa, em português, "fantasmas!!". Os indonésios são muito supersticiosos. Mas fazem tudo para escapar ao tráfego.]
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Eis o pôr-do sol da minha varanda em Jacarta.
Hoje apreciei-o. E achei-o estranhamente belo.

ojek



Aqui a melhor forma de circular é de "ojek". Apanhamos a motita, pagamos 10.000 rupias (cerca de 80 cêntimos) e lá vamos, de capacete à banda (os capacetes ficam-me sempre demasiado largos e não os posso ajustar, porque a mola está sempre estragada ... Então vou assim, disfarçada de protegida, às vezes a mão sobe ao capacete.... mas... há sempre esta imensa sensação.... de...).
Vemos famílias completas sobre as motos. Desta vez, apanhei um casal com os dois filhos; mas há vezes em que vão cinco ou seis sobre o frágil dorso mecânico.
Eu vou para a estação de comboio de "ojek". Para a estação de "Tebet", a poucos quilómetros de minha casa - mas por onde não passa o autocarro. De Tebet vou directamente para a estação da Universitas Indonesia, onde ensino.
Sento-me e vou - e eles já me conhecem, e perguntam "Tebet?" - e quando regresso perguntam "Taman Rasuna enam?" , que significa "Taman Rasuna, torre seis?".
E cá está o habitual, como todos temos, o rotineiro...
Mas a vocês a minha rotina parece-vos diferente, não é? Mas é tão rotina quanto a vossa...