era uma vez
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Era uma vez um sonho que eu tive. Nesse sonho, o meu cabelo era verde e as minhas mãos de lenho. Eu caminhava por um espaço sem fim. Enquanto caminhava, surpreendia animais simpáticos e alguns deles seguiam-me pelo caminho inventado. Era uma vez três, duas, uma pulga sobre a cabeleira da minha cadela. Eu vi-as bem, porque eram pretas e a minha cadela loira. Um dia, tentei asfixiá-las com um algodão embebido em álcool, mas a minha cadela disse “Não vês que me ficam bem?” e eu senti vergonha e pedi desculpa. Era um vez uma pradaria cheia de quadros, cheia de arte, cheia de coisas impropositadas. Nada estava ali por uma razão, mas apenas porque sim. E quem quisesse olhava, quem não quisesse não olhava. Era uma pradaria-museu, sempre aberta ao público e para a qual as pessoas não precisavam de bilhete de entrada. Nessa pradaria aconteciam eventos fantásticos, improvisados pelos próprios visitantes, que não faziam o que faziam por nenhuma razão em particular, mas apenas porque se sentiam bem. Eram performances nunca vistas, actuações únicas, cambalhotas vertiginais. Era uma vez uma cidade muito grande, onde as ruas nunca eram sós e onde os centros comerciais estavam sempre apinhados. Nesta cidade havia muito barulho por nada e muitos homens das obras. Era uma cidade com canais de água cartonada, com autocarros públicos descapotáveis, com rotundas giratórias, com o trânsito ao contrário. Os habitantes dessa cidade não usavam sapatos e eram de tez escura, fumavam cigarros de gengibre e não comiam, cuspiam para o chão, dormiam em pé, e amavam-se às escondidas. Era uma cidade curiosa, que apetece sempre relembrar – essa cidade tão grande que se via do espaço. Era uma vez um homem e uma mulher parecidos e solitários, que não se conheciam e que nunca se conheceram durante a vida inteira. Era uma vez um gato sem dono na estrada, um gato siamês com um olho azul e outro verde, que vivia num bairro simpático onde as pessoas lhe davam cabeças de peixes. Um dia, o gato foi atropelado por uma mota. Sobreviveu, mas ficou sem uma pata dianteira. Então, as crianças brincavam com ele e um dia cortaram-lhe a cauda. Toda a gente do bairro gostava muito do gato e riam-se muito com ele. Um dia, um miúdo quis saber como seria se ele não tivesse a outra pata da frente, então amputou-a. O gato era muito feliz porque toda a gente lhe dava comida e atenção. "Olha agora, o gato!, anda como gente com as suas patas traseiras! Que giro!" Era uma vez uma senhora muito velha que morava num lar e passava o dia a resmungar. Um dia, ela morreu e houve um funeral. No funeral havia muita coisa. Muitos homens das obras, um gato vertical, três pulgas, acrobatas anónimos, um homem e uma mulher que não se conheciam, quadros, eu e a minha cadela. O funeral foi numa pradaria linda, a perder de vista, e ela foi enterrada entre um Affandi e um Bacon. Esta pradaria ficava nos subúrbios da maior cidade que alguma vez apareceu descrita numa história.
o alfarrabista
Há um alfarrabista no Pasar Festival, um pequeno centro comercial perto da minha casa. Costumo ir lá beber café, petiscar, jantar num restaurante indiano, menos frequentemente almoçar num restaurante japonês, comprar DVDs piratas e - finalmente - perder-me numa loja rectangular e familiar, com cheiro de livros antigos, molhados pela humidade, com revistas variadas, e um silêncio incomum.
Vou lá para relaxar, agarro os livros e respiro-lhes a sujidade e a espera, olho para os títulos, por vezes encontro umas pérolas oportunas.
Comprei estes dois livros. Comecei a ler um deles, que fala sobre o erotismo e o sexo na China, na sua literatura e na sua sociedade. Deu-me para sorrir no comboio, enquanto desvendava um mistério novo. Não passei do segundo parágrafo, porque ambos os parágrafos me enfadaram um pouco - mas hei-de ler o livro até ao fim.
No outro dia perguntavam-me quando se usava a construção de hei-de com infinitivo. Pois eu digo que a usamos quando fazemos uma promessa a nós mesmos pressentindo que nunca a iremos realizar.
Este alfarrabista fica em frente de um pavilhão de bowling e entre um cabeleireiro e um espaço improvisado para massagens em cadeiras ergonómicas.
Enquanto cheirava os livros e acalmava os nervos, olhava de esguelha para um dos empregados, que fixava preços em acervos recém-chegados. Sentado num banco, com um caixote à frente, ia dele retirando sem afectos livro a livro e com uma pistola de etiquetagem ia escolhendo os preços para cada um. Olhava o livro, primeiro de perto, depois afastava-o um pouco como que para ter uma boa visão de conjunto, virava-o para lamber com os olhos a contracapa e tumba - decidia o preço. Abrir o livro? Para quê? E inspirada por ele, assim escolhi os meus novos livros.
citação da noite

"Esta vida pode ser tão fácil, se a gente se esforçar por isso, pá."
in Noite Escura, um filme de João Canijo.
a travessia
Delicadamente, coloquei 2000 rupias no saquinho de plástico, e olhei-o com olhos de mãe. Enquanto ele varria os pesadelos, sem reparar em mim.
sem nós, o que seria deles?

Lembrava-me de um certo incómodo, da primeira vez que o li. Não me lembrava bem porquê. Pensava que seria por versar a guerra. No entanto, lembrava-me também do espanto e da paixão. Depois de ler este livro, com o qual descobri este magnífico romancista que foi o Pierre Boulle, desatei a devorar o senhor. E, com ainda maior espanto, li, por exemplo, Le Planete des Singes, e outros - ainda mais belos a meu ver - como Pour amour de l'Art e Le Professeur Mortimer.
Incomoda-me lê-lo. E que mais se deve esperar de um bom romancista?
Mas, nesta segunda leitura da famosa ponte sobre o rio Kwai, mais conhecida pelo filme do que pelo autor, fiquei chocada.
E depois, admirada. E depois, grata.
Passa-se durante a Segunda Guerra Mundial. Estamos na Ásia. Colónias inglesas e holandesas foram ocupadas pelos japoneses. Militares ingleses, entre outros, são prisioneiros num campo de trabalho forçado liderado por um bruto coronel japonês. A missão: construir uma ponte sobre o rio Kwai, na fronteira entre a Birmânia (Mianmar) e a Tailândia, para que seja concluída, por linha ferroviária, a ligação entre Banguecoque e Rangoon (Yangon), de forma a que a armada japonesa chegue a Bengala, ocupando assim a Índia.
Porquê chocada? Por isto:
"'What fools they are, sir!', said Clipton looking closely at the Colonel. 'To think that, without us, they would have built their bridge in a swamp and it would have capsized under the weight of their trains loaded with troops and supllies!'
There was a strange glint in his eyes as he spoke, but the Colonel's face remained inscrutable.
'Yes, aren't they?' he solemnly replied. 'They're what i've always said they were: primitive people, as undeveloped as children, who've acquired a veneer of civilisation too soon. Underneath it all they're absolutely ignorant. They can't do a thing by themselves. Without us, they'd still be living in the age of sailing ships and wouldn't own a single aircraft. Just children... yet so pretentious as well. Think of it, a work of this importance! As far as i can make out, they're only just capable of making a footbridge out of a jungle creepers'"
E este é um pequeno exemplo do discurso racista que grassa pelo pequeno livro inteiro.
No fim, ficou-me a admiração. Primeiro, porque apesar de me coçar por causa dessa ideologia extremista que vislumbrava e que me inquietava, não conseguia deixar de admirar a mestria narrativa, o suspense, as minuciosas descrições, a envolvente análise psicológica. Depois, porque - fosse ou não a intenção do autor (e creio que sim; sendo ele o mesmo que escreveu uma obra como o Planeta dos Macacos, onde satiriza encantadoramente e em jeito de ficção científica a alta conta em que os humanos se têm) - derrotada e alegre ao mesmo tempo, cheguei ao fim com a presença divina da Ironia e com a sensação de que "a complexidade e o método ocidentais e anglo-saxónicos" (palavras do autor) são tão separados desta vida, o que quer que ela seja, são tão abstractos, tão sem escopo para além da sua própria auto-contemplação, que me dão uma imensa vontade de rir.
Obrigada, Pierre Boulle.
atonia
______________________No "planeta dos macacos", Templo Kao Nor, província de Nakorn Sawan, Tailândia.
passando a esfregona pelo chão da casa
Assim chora a minha casinha pela Mámi, que veio com cigarros e com alguns suspiros de calor e de impaciência, mas também com a sua força de Mãe - veio passar a Mão pela nossa cabecinha.
hantu-do-sol
Arranjei uma password tão tramada para entrar na minha conta do google que nunca a consigo escrever bem logo à primeira.
Hoje, foi à quarta.
Antes de mais, penso na minha mãe, que chegará depois de amanhã ao Oriente, onde cruzará os seus braços com os meus braços. Troquei umas breves palavras com ela, há pouco, senti-a agitada, sensível, enfim, nada que uma pisciana não deva ser, fazendo as últimas compras para responder aos meus pedidos extravagantes de atum e polvo em lata e outras conservas, gel de lavagem para peles acneicas, sensodyne para os dentes, liquifilm para os olhos, chocolates portugueses para amizades indonésias, vinho (tinto e branco), filmes e livros, um sem-fim, tadinha da Mami... , e revi-a assim:
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Raramente dou pelo pôr-do-sol aqui. Aconteceu-me prestar maior atenção hoje, porque estava mais livre e porque há uns dias, falando das várias possibilidades do verbo "pôr" em aula, mencionei o "Pôr-do-Sol" - e fiquei angustiada (terão eles notado?! a minha angústia? a minha ignorância?). Angustiada, porque me apercebi de que eu não sabia o que era um pôr-do-sol na Indonésia. É verdade que aqui o crepúsculo dura um estalar de dedos. O crepúsculo equatorial... Rápido. E entre arranha-céus, então, rapidíssimo! Mas hoje estive à coca.
Vejam o que eu vi da minha varanda:
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Eis o pôr-do sol da minha varanda em Jacarta.
Hoje apreciei-o. E achei-o estranhamente belo.
pusing
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No outro dia, passeava por uma livraria. Comprei um livro que estava em promoção. Por coincidência o livro chama-se Culture Troubles e é uma espécie de estudo comparativo do Estado e da representação política em três países tão diferentes como a França, a Suécia e a Nigéria...! O que primeiro me chamou a atenção foram, naturalmente, as letras capitais anunciando a "Promosi!"; depois o título do livro - já que eu tenho andado "pusing" (o bahasa para "com dores de cabeça" - não é tão mais simples?! "saya pusing" e está tudo dito - "estou com dores de cabeça"!) por causa de muitas coisas, uma delas o esforço de compreender; finalmente, decidi-me quando li na contracapa que o ensaio recaía sobre as diferenças culturais entre três países e a forma como isso afectava a sua política - e eis que um dos países contemplados é a Nigéria! E eis-me a comprar um livro sobre a Nigéria na Indonésia...
A minha sala está com tantos papéis e eu estou com tantos papéis na minha cabeça, manuais sobre manuais, fichas sobre fichas, projectos que são como campos imensos de arroz onde me sinto perdida - sem saber como me mover por eles e como fazer para cultivar o raio do arroz - procrastinações (ó sim, tornei-me fã deste substantivo que me traz à mente a imagem de um escorpião ou de um caranguejo nem sei porquê... é uma palavra com pinças - tenho cá para mim), eu sei lá. Pusing pusing.
Hoje apanhei uma molha a vir de ojek para casa. Chovia tanto! O rapaz-ojek, preocupado, travava levemente entre as poças, olhava de soslaio para as minhas calças a conferir se não estavam muito molhadas, perguntava se eu não queria recolher-me sob a sua capa impermeável amarela... E eu molhava-me, tive de fechar os olhos - porque começavam a arder-me - e cheguei, de mansinho, a encostar a minha cabeça nas costas amarelas de quem me guiava, deixando-me simplesmente não pensar em nada. Bendito ojek!
Enquanto esperava pelo comboio, na estação da Universidade (1 hora à espera...), chovia chovia, e eu sentada sobre a trave de aço, a olhar para as poças e para a linha férrea molhada, cheia de pedras molhadas. Ao meu lado, estava uma menina como muitas meninas indonésias. Vestida com umas calças justas, umas sabrinas nos pés, uma camisola bonita, de tecido leve (não sei qual) e larga; a carinha redonda, os olhos grandes e ainda maiores pelas lentes de contacto de cor que usava (aqui está na moda usar dessas lentes - então, rapazes e raparigas, andam por aí com olhos de leopardo, com olhos amarelos, com olhos violeta, com olhos azul turquesa...), o cabelo preto preto, comprido e liso, apanhado num bem cuidado rabo-de-cavalo e uma franjinha sobre a testa, cuidadosamente puxada para o lado direito, culminando numa leve e sensual ondulação para cima, para o ar, para o céu, como uma antena. Entrou no mesmo comboio que eu, e enquanto esperava não tirou os dedos rápidos do seu telemóvel quadradão, largo e cheio de botões e coisas, entre outras internet e máquina fotográfica. Reparei que escrevia no facebook.
Poucos segundos antes de apanhar o ojek, percorria o cais da estação - porque tinha saído do comboio mesmo lá muito atrás e tinha de atravessar toda a plataforma até à saída. Olhando para a plataforma oposta, vi uma massa anónima de gente, esperando sobre os bancos mal ajeitados. Eram 7 da noite e a esta hora as pessoas que trabalham em Jacarta estão a regressar para as suas casas nos subúrbios, lá para os lados da minha Universidade. Pequenino e encolhido, entre a gente imperturbável, vi um menino, talvez de 11 ou 12 anos, a varrer a água para fora, para a via férrea, para ganhar umas poucas rupias em troca, como esmola. Muito magro, de cócoras, com perninhas de grilo, uns olhos grandes e vazios e um leve arroxeado sob eles, que presumi fossem olheiras, descalço, entre a água, enxotando-a para o lado e ela a ele regressando de cima, naquela tarefa inglória e indiferente para os que o rodeavam.
E então, de mansinho, nem sei se ele notou ou não, encostei a cabeça nas costas amarelas do ojek, enquanto ele me guiava pelas avenidas inundadas - largando-me na doçura do vento e do vazio.
animais, apesar de tudo, ainda nossos amigos
Amanhã a Filipa faz anos. Amanhã é domingo. Amanhã posso escolher entre deitar-me no sofá a ler um livro e cansar-me com coisas inventadas. Amanhã posso fazer bastante coisa.
Não me vejo assim tão diferente do que era há oito anos atrás. Será sinal de jovialidade ou de atraso mental? Os mesmos olhos abertos para o nada asfixiante e eternamente perscrutador. As mesmas pequenas insónias (é verdade que há oito anos eram maiores). A mesma média-luz na sala, no quarto, nos restaurantes que escolho para jantar. O mesmo álcool. A mesma ansiedade pela perfeição. A mesma procura absurda. O mesmo encanto fechado, calado, pelos detalhes das ruas e pelos animais.
E esta última leva-me a outra história. Ainda agora acontece-me chorar convulsivamente pelos animais.
Uma noite fui jantar com a Filipa a um Chinês perto de Azeitão. No regresso, passámos por um circo ambulante decrépito. Pedi-lhe para parar o carro, tinha entrevisto um urso e queria vê-lo de mais perto. Aproximámo-nos e ele lá estava, enjaulado, enorme num mundo demasiado pequeno para ele, cheio de instintos e de aptidões que não podiam respirar naquela jaula. Ele bamboleava, ora se apoiava numa pata ora na outra, e sorria numa quase imaterial baba que escorria da sua boca. Olhava-me fixamente, porque eu o olhava com os olhos de alguém que tentava. Senti que me falava, que me pedia ajuda, e senti que ele tentava libertar-se de um estado de alucinação. Comecei a gritar, a avançar pelo campo do circo, à procura de gente que me desse justificações sobre o estado daquele pobre urso. Até que, entre a noite e o silêncio, cinco dedos frios da minha amiga Filipa disseram sobre o meu ombro tenso "É melhor irmos. Aqui não há ninguém que vos oiça". E nós fomos. Mas levei o pequeno grande urso no meu coração.
Aqui, em Jacarta, vejo meninos de 5, 6, 7 anos a pedir esmola pela rua, acompanhados de pequenos e tristes macacos. Os macacos fazem espectáculos ridículos e decadentes de acrobacias mal ajeitadas (lembram-me sempre o pobre professor apaixonado no Anjo Azul do Sternberg), com o olhar mais carregado de tristeza e mais submisso ao mesmo tempo... Estes macacos, num recanto fotográfico de Jacarta, originaram mais um dos meus delírios. Este.
o que é?
A Vina Novianti.
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Mas através da Vina fui abrindo os olhos para uma peculiaridade dos indonésios. No início, eu não sabia nomeá-la, apercebia-me dela, por vezes incomodava-me, mas não sabia o que era. A minha amiga trouxe-me as palavras.
No geral, eu não consigo ver para além da cara destas pessoas. Como explicar? São pouco claros. Falta uma espécie de densidade, tridimensionalidade, de profundidade - que nos faz conhecer as pessoas.
Excluindo a Vina, ainda não consegui "conhecer" ninguém aqui. Ao contrários dos nigerianos - que de tão abertos até se tornavam, por vezes, agressivos, rudes - os indonésios são sempre dóceis e têm sempre um sorriso no rosto. Riem muito, mesmo que nem eu nem eles percebamos do que se estão a rir... É uma espécie de defesa e de máscara. E marca uma distância muito grande entre mim e eles, que me angustia.
Depois de uma conversa um pouco tortuosa com a Vina, passeando-nos pelas largas avenidas de Tugu (ihihih, isto é uma piada que só nós entendemos), comecei a pensar nas consequências de mais de 30 anos de ditadura, com o presidente Suharto. Mas achei que não podia ser só disso. Depois pensei na pobreza. Mas a Nigéria também é muito pobre e os meus alunos interrogavam-me constantemente e enquanto não percebiam algo insistiam até perceber ou quase perceber. E criticavam. Se achavam que eu não estava a explicar bem alguma coisa, diziam, e criticavam. E eu melhorava e explicava melhor. Por isso, achei que não podia ser só disso também. Pensei ainda na religião. 80% ou mais dos indonésios são muçulmanos. [um aparte - nunca vi ninguém que desse tanto a mendigos, por exemplo; às vezes, enquanto espero o comboio, vejo meninas de universidade, tão novinhas, a dar esmola a cada mendigo que passa... - o que é a religião? não é show-off?] Mas não consegui encontrar nesse facto uma justificação satisfatória para a minha grande questão!
Então acho que vem daquilo que eu sempre considerei nos asiáticos, que é a polidez. São inerentemente respeitosos e delicados na relação com o outro, principalmente se esse outro for um forasteiro.
E é paradoxal como essa delicadeza me desconforta, porque não há transparência - é só cerimónia.
E com a Vina percebi que isso cria todo um submundo que vai alimentando as pessoas e compensando a sua contenção - como as telenovelas. Por não falarem aberta e directamente sobre aquilo que pensam, canalizam todas as suas opiniões caladas num subterrâneo de intrigas, historietas, por vezes mesquinhas, e invenções. A clara origem do drama.
dando voltas no estádio
Fui correr, ao fim da tarde, num estádio meio abandonado que fica a poucos passos da minha casa. De vez em quando vou para lá, principalmente quando já caiu a noite. Nunca acendem os holofotes e tu respiras a escuridão pesada de uma noite tropical.
Primeiro caminho, durante uns 20 minutos, depois corro. Às vezes assusto gatos, morcegos ou ratos que devem morar por ali, não sei. No início, eu também me assustava, mas comecei a perceber que eu os assustava muito mais a eles e que tinha uma notória e confortável vantagem sobre os bichos. Acho que não me vão atacar e pode ser que com o tempo se habituem à minha presença veloz entre eles.
Relaxa-me ir para ali e penso devagar sobre as coisas.
Melhor mesmo é quando corro e me ultrapasso a mim mesma e esqueço-me de que existo - e aquilo que corre ali é uma pedra fisgada no ar com muita força. Era o que me acontecia quando nadava. Depois de um esforço horrendo, passados 50 minutos de sofrimento, entrava numa espécie de transe e parecia que não eram os meus braços quem empurrava as águas e o cloro ardente...
Pensava sobre isso, depois de ter voltado a mim, depois da correria, enquanto esticava os braços para a frente e para trás e batia com os calcanhares nas nádegas, - e sonhava. Sonhava que, um dia, os meus alunos viriam a sentir isso nas minhas aulas. Depois do esforço, da concentração e do estudo - que, um dia, o português patinaria na língua deles como saliva.
Tentei lembrar-me se alguma vez tinha sentido isto numa aula, esta sensação de ausência de mim, de extremo conforto, de liberdade e de relaxe. Não. Sempre fui uma stressada nas aulas. Cada vez que queria falar o coração começava a bater-me com tanta força que pensava que me ia romper o peito e saltar e voar como um passarinho doméstico que levou um tiro, partindo os vidros das janelas da sala de aula. A maior parte das vezes não falava. Nunca fui muito participativa nas aulas, apesar de ter coisas para dizer...
E agora estou a pensar numa receita - para que os alunos possam sentir, aprendendo e falando uma língua estrangeira, aquilo que sentimos quando fazemos desporto e nos esquecemos de que estamos cansados e a fazer esforço e de repente já nem contamos as voltas que damos e já só vamos em frente e até parece que podíamos continuar horas e horas e horas assim...
Hoje foi a primeira vez que isto me aconteceu a correr. Comecei há duas semanas e tem sido sempre uma sofredeira dos diabos. Mas hoje aconteceu o milagre!
No fundo, é disto que o Budismo fala quando fala na renúncia do ego. Olha só o que conseguimos fazer quando nos esquecemos de nós próprios e das tretinhas dos nossos problemas de meia tigela... No entanto, só se chega a um estado desses com disciplina, persistência e esforço.
O desporto é muito importante! Devia ser disciplina obrigatória não só no ensino secundário, mas ainda na universidade!
Entretanto, pensei noutras coisas. Pensei que quando comecei a pensar, espantada comigo mesma, a tentar contar as voltas que já teria dado e achando que já eram mais do que o habitual com certeza - senti-me repentinamente exausta, à procura do traço branco, marcado a giz sobre a terra batida da pista, que marcaria o fim.
E depois pensei que se não houvesse traço branco e não me lembrasse que havia um fim, continuaria e não me sentiria tão exausta. E, claro, vieram-me à mente as mais variadas e banais experiências já vividas: quase fazer xixi nas cuecas quando estava mesmo a chegar à casa-de-banho; desistir, sem fôlego, quando começava a vislumbrar a parede da pista na piscina, já na última volta do sprint; esperar horas por uma consulta no dentista e ficar impaciente e dirigir-me à saída e dizerem-me que vou ser atendida já a seguir e eu ir embora; sei lá - vocês poderão dar-me outros exemplos, vossos, porque todos nós sentimos o mesmo. Perto do fim, perdemos as forças e queremos quase desistir, depois de horas, ou meses ou mesmo anos de espera, esforço ou persistência.
Por isso é que as pessoas gostam de ver túneis de luz quando morrem, ou gostam da ideia de os ver - pronto. Se vissem qualquer coisa como uma meta, uma bandeirinha, um traço a giz no chão - ainda que luminosos, como o mítico túnel, o coração começava-lhes a bater demasiado depressa porque sentiam que estavam a chegar ao fim de uma coisa que nem sabiam bem o que tinha sido e que a caminhada tinha sido tão longa e que estavam tão cansados e com vontade de ir à casa-de-banho e "onde é que há uma casa-de-banho?", etc. Mas se vêem um túnel... ah... isso é outra coisa: há uma continuidade que não os deixa parar. Move-os a curiosidade? Move-os o esquecimento, talvez.
E se nós paramos, coçamos a cabeça e ficamos deprimidos, muito cansados, e sentamo-nos numa rocha a pensar como o outro do Rodin que sempre achei um bocado ridículo.
Então pensei ainda uma outra vez! Pensei que quando eu for escritora, os meus livros nunca hão-de ter um fim, porque eu não quero que os meus leitores se sintam cansados e desencorajados, quero-os sempre super-humanos!
Pramoedya

Não sei a que horas adormeci, mas seria tarde, e eu estava inquieta. Como nos tempos da faculdade em que estudava com muita força, especialmente as disciplinas de língua e linguística que sempre me fascinaram, e dormia como que acordada vendo passar em powerpoint gigantes símbolos do alfabeto fonético sobre a minha semi-consciência.
A dada altura lembrei-me dos meus tempos de Lavaur, e como me era sossegada a vida, e perguntei-me porquê. A conclusão foi rápida e clara: não tinha internet em casa, vivia no campo e tinha poucas responsabilidades.
Mas passei a tarde a ler um romance que iniciara durante a insónia. A Rapariga de Java (traduzido para português e publlicado pela Quetzal) do grande autor indonésio Pramoedya Toer, escritor javanês que morreu em 2006, com 81 anos. Esta tinha sido uma prendinha de uma pessoa que é no meu coração, a Cristina, e só ontem encontrei a disposição ideal para o experimentar ler (não haja dúvidas de que as insónias nos deixam num tal estado de desalento e de dúvida perante a vida que só mesmo um bom livro nos pode deles salvar....).
Há muito tempo que não sentia esta dependência por um livro, aquela que não nos deixa sossegar enquanto não o acabamos.
Uma história melodramática e com um fim que não me agradara, enquanto não investiguei algo da obra pela net - descobrindo que este era um romance autobiográfico.
Mas admito que no início senti que estava a ler daqueles romances best-sellers sobre meninas de burka, acabadas de casar com um velho feio e de penetrar no seu harém, que têm uma vida infeliz algures no médio oriente. Ainda que o livro não tenha nada a ver com isso. Foi só uma sensação. E as sensações são coisas maravilhosas para a literatura e para a poesia e para a construção de metáforas e de uma sempre fresca sensibilidade - mas podem deixar-nos a léguas da realidade.
É um romance profundo, incrivelmente feminino (aliás, acho que o Pramoedya era um feminista!), com as inevitáveis mensagens ideológicas como pano de fundo (nacionalismo indonésio; feminismo; vida do campo - pura e honesta - vs vida da cidade - decadente e alienatória; discrepância social e económica; almas servis dos pobres que só pensam em ter dinheiro para comer e não encontram inteligência para nada mais; a cultura fortíssima de hierarquias que reina em Java, etc, etc). A dada altura - e foi a melhor! - senti-me como em Kafka ou como em Selma Lagerlof - ai, esta adição deliciosa de surrealismo, improbabilidade, perversidade e lirismo = a presença inquietante de personagens e, claro, depois = o nascimento de situações que ao mesmo tempo que belas, porque oníricas, nos provocam um certo mal-estar e indiciam a malícia do mundo e das pessoas... como a figura do bardo com a sua pandeireta (que me lembrou o pobre bardo do Astérix que acabava sempre amordaçado à árvore enquanto a comunidade se banqueteava!), ou do ancião da vila... E também os momentos de incrível ternura cheia de humor, como a do diálogo entre a rapariga de Java e o cocheiro, me lembraram aqueles dois autores. E também neste romance as personagens não têm nomes, mas "títulos", o que nos faz falar delas como numa história (o que é, de facto...): "conheci uma rapariga... e havia um velho que... e o cocheiro...".
Este anonimato faz-me sentir confortável enquanto leitora, inquieta-me ao mesmo tempo e faz-me sentir mais nova, também.
Por isso, quando eu for escritora, acho que não vou dar nomes às minhas personagens. Há pintores que fazem o mesmo - e eu gosto deles.
E agora vou dormir, sem fonética, por favor.
ojek
Aqui a melhor forma de circular é de "ojek". Apanhamos a motita, pagamos 10.000 rupias (cerca de 80 cêntimos) e lá vamos, de capacete à banda (os capacetes ficam-me sempre demasiado largos e não os posso ajustar, porque a mola está sempre estragada ... Então vou assim, disfarçada de protegida, às vezes a mão sobe ao capacete.... mas... há sempre esta imensa sensação.... de...).
Vemos famílias completas sobre as motos. Desta vez, apanhei um casal com os dois filhos; mas há vezes em que vão cinco ou seis sobre o frágil dorso mecânico.
Eu vou para a estação de comboio de "ojek". Para a estação de "Tebet", a poucos quilómetros de minha casa - mas por onde não passa o autocarro. De Tebet vou directamente para a estação da Universitas Indonesia, onde ensino.
Sento-me e vou - e eles já me conhecem, e perguntam "Tebet?" - e quando regresso perguntam "Taman Rasuna enam?" , que significa "Taman Rasuna, torre seis?".
E cá está o habitual, como todos temos, o rotineiro...
Mas a vocês a minha rotina parece-vos diferente, não é? Mas é tão rotina quanto a vossa...

